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15/06/2012 | "TROPA DO CHEQUE" ABRE GUERRA NA CPI


MAIS UM CAPÍTULO DA BLINDAGEM NA CPI

JOÃO VALADARES e DENISE ROTHENBURG

Correio Braziliense - 15/06/2012

Em sessão tumultuada, a comissão que investiga as ligações criminosas do bicheiro Cachoeira acabou dividida e deu margem até à criação de uma CPI paralela. Primeiro, foi provada a quebra dos sigilos de Agnelo e de Perillo. E decidida a convocação de Andressa Mendonça, a mulher do contraventor. Mas, por 17 votos a 13, a CPI recusou-se a ouvir Fernando Cavendish, dono da Delta, e Luiz Antonio Pagot, ex-diretor-geral do Dnit. Foi aí que o clima esquentou. Mesmo sendo da base governista, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) denunciou uma suposta "tropa do cheque" que atuaria para impedir a CPI de interrogar pessoas capazes de causar embaraços ao Planalto e aliados. Alguns componentes desse grupo, disse Miro, teriam almoçado com Cavendish, em Paris. Irritado, Cândido Vacarezza (PT-SP) reagiu: "Eu não sou da bancada do cheque". Segundo Miro, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) vai presidir CPI extraoficial que ouvirá Pagot, candidato a homem-bomba do escândalo.

Em uma sessão tumultuada, com direito a muito bate-boca por causa da denúncia de uma "tropa do cheque", comissão adia a votação das convocações do dono da Delta e de ex-diretor do Dnit
O trator governista entrou mais uma vez em ação e atropelou ontem qualquer tentativa de avanço na investigação da CPI do Cachoeira. A pedido do relator Odair Cunha (PT-MG), a comissão adiou as convocações do dono da empreiteira Delta, Fernando Cavendish, aquele que garante comprar qualquer senador da República por R$ 6 milhões; e do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (Dnit) Luiz Antônio Pagot, candidato a homem-bomba da CPI. A oposição esperneou, ameaçou se retirar da sessão e decretou a morte da CPI. O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), mesmo sendo da base governista, reagiu e denunciou uma "tropa do cheque", formada por deputados e senadores, alguns deles integrantes da CPI, que teriam almoçado com Cavendish, em Paris, na semana santa, após viagem em missão oficial a Uganda, na África.
À noite, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que integra a comissão, informou que se encontrou com Cavendish casualmente, sem agendamento prévio, durante almoço num restaurante em Paris. Os deputados Dudu da Fonte (PP-PE) e Maurício Quintela (PR-AL), integrante da CPI, acompanhavam o senador. Eles estavam com suas mulheres e, conforme Ciro Nogueira, Cavendish estava sentado em outra mesa. O parlamentar alega apenas que o cumprimentou. "É uma molecagem o que estão dizendo agora. Miro aproveitou o momento em que eu não estava na sala para falar isso", afirmou.
Ontem, quando o relator se posicionou contra a convocação de Cavendish, Ciro Nogueira foi o primeiro a se inscrever para apoiar o encaminhamento proposto pelo deputado Odair Cunha. Disse que não havia motivo, neste momento, para convocação do dono da Delta. De acordo com ele, a CPI precisava analisar os documentos relativos à quebra de sigilo da construtora para se preparar melhor.
O termo "tropa do cheque", que causou bate-boca e constrangimento, surgiu durante depoimento do governador Agnelo Queiroz (PT-DF), na última quarta-feira, que se confundiu e trocou as palavras. Ele queria dizer que não tinha levado nenhuma "tropa do choque" para o plenário da comissão. Ontem, a expressão, repetida por Miro Teixeira, foi o combustível para início de uma grande confusão. "Eu não sou da bancada do cheque. O senhor precisa ter responsabilidade. Essa CPI tem foco. Chamar o Pagot aqui é para discutir contribuições de campanha. Isso não é foco da CPI. Temos que examinar a organização criminosa do senhor Cachoeira", atacou Vaccarezza.
O parlamentar carioca rebateu. "Que medo é esse? É o medo da revelação da verdade. Esta comissão fica sob suspeita, sim. Revela uma tropa do cheque. Se eu tivesse um nome, faria uma denúncia", afirmou Miro. No fim da sessão, ele encaminhou requerimento pedindo informações ao Senado e à Câmara para ter todo o detalhamento da missão oficial.
"Notícia-crime"
Com o adiamento dos depoimentos, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) resolveu criar uma espécie de CPI paralela para ouvir Pagot, com o apoio de outros integrantes, numa sala do Congresso. Miro ressaltou que o drible no relator não fere o regimento. "Vamos comunicar a notícia-crime e chamar um delegado da Polícia Federal para tomarmos o depoimento do Pagot por termo. Será uma sessão pública, presidida pelo senador Pedro Simon (PMDB-RS). Ele já topou e vai aproveitar a próxima semana, quando não haverá sessão, para conversar com o Pagot."
Deputados e senadores que se posicionaram contra o relator alegaram que a empreiteira Delta foi declarada inidônea pela Controladoria-Geral da União e tem um ex-diretor ligado à Cachoeira. O adiamento do depoimento de Cavendish foi aprovado por 16 votos a 13. No caso de Pagot, o placar ficou em 17 a 13. Odair Cunha alegou que a votação não significa que o dono da Delta ficará sem ser ouvido. "Aprovamos aqui apenas o adiamento. Não estamos dizendo que a CPI rejeita o depoimento de Cavendish."
Vital do Rêgo, presidente, e Odair Cunha, o relator: a CPI decidiu que não vai se reunir na semana que vem
Após o resultado ser proclamado, um grupo de integrantes da CPI, grande parte da oposição, ameaçou se retirar da sala. O deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), líder do partido na Câmara, disse que estava envergonhado. Mas pouco antes, o PSDB foi ridicularizado por ter apresentado requerimento pedindo a convocação da presidente Dilma Rousseff. A solicitação foi assinada pelos deputados Carlos Sampaio (PSDB-SP), Fernando Francischini (PSDB-PR), Domingos Sávio (PSDB-MG) e Vanderlei Macris (PSDB-SP). O presidente da CPI, senador Vital do Rêgo, citando a Constituição Federal, afirmou que nem iria receber o requerimento. Na próxima semana, não haverá nenhuma sessão da CPI do Cachoeira.
Colaborou Adriana Caitano e Karla Correia
"Que medo é esse? É o medo da revelação da verdade. Esta comissão fica sob suspeita, sim. Revela uma tropa do cheque"
Miro Teixeira (PDT-RJ), deputado federal e integrante da CPI
Histórico
» Os requerimentos para a convocação dos governadores do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT-DF), e de Goiás, Marconi Perillo (PSDB-GO), só foram aprovados após três reuniões administrativas e muita pressão da opinião pública.
» O relator da CPI impediu, por várias vezes, votação do requerimento para quebra de sigilo da Delta em todo o Brasil. Dizia que não havia justificativa, mesmo com a empreiteira no foco do escândalo. Só depois de vários adiamentos, a comissão resolveu votar o pedido.
» O senador Randolfe Rodrigues (PSol-AC) esperou mais de um mês para que 28 requerimentos que solicitavam a quebra de sigilo de empresas fantasmas ligadas à Delta entrassem na ordem do dia. Apenas parte das solicitações foi votada.
» Ontem, mais uma vez, o relator alegou que não era o momento de aprovar a convocação do dono da Delta, Fernando Cavendish, e do ex-diretor do Dnit, Luiz Antônio Pagot.



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