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09/06/2012 | Transpor a seca


EDITORIAL FOLHA DE S. PAULO - 08/06/12

Cinco anos depois de iniciadas as obras de transposição do rio São Francisco, que prometia ampliar a oferta de água no Nordeste brasileiro, uma severa estiagem volta a castigar o semiárido.

O controverso projeto avança em ritmo lento, porém. Nunca chega o dia em que a população poderá conhecer seus alardeados benefícios.

Dos 16 lotes de obras do projeto, 5 encontram-se paralisados. Em alguns casos, empreiteiras que haviam assumido os projetos terminaram por abandoná-los, quando os aditivos -acréscimos ao valor orçado- por elas solicitados foram indeferidos. O governo terá de licitar novamente algumas das áreas.

A irrigação do sertão não passou, até aqui, de uma grosseira miragem. Apenas 36% dos projetos ligados à transposição foram concluídos, segundo dados do governo federal. Não se sabe quando a obra ficará pronta nem, o que é pior, quanto custará.

O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, afirmou em audiência na Câmara dos Deputados, no fim do mês passado, que não é possível avaliar quanto se gastará. A estimativa mais recente é de R$ 8,2 bilhões; em 2007, previam-se R$ 4,7 bilhões. Mesmo longe de completar-se, já se vê, o custo anda perto de duplicar-se.

Tudo na condução dessa obra faraônica revela descaso com os moradores do semiárido, embora tenham servido de justificativa para o projeto. Especialistas nunca obtiveram consenso sobre sua relevância para combater a falta de água no sertão. Jamais houve dúvida, contudo, quanto a seus benefícios comerciais para empreiteiras ou vantagens eleitorais para candidatos governistas na região.

Desde que a transposição foi encampada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, especialistas alertam para a necessidade de investimentos na captação e armazenagem da água das chuvas. A instalação de uma rede pulverizada de pequenos e médios reservatórios, como as cisternas em domicílios rurais, teria resultados mais práticos que os sonhos de grandeza do governo federal. Continuará necessária, mesmo depois de concluída a intervenção no São Francisco.

Apesar de todos os exageros e desvios que cercam o projeto, não há alternativa a seguir adiante, em face das verbas já comprometidas. Na melhor das hipóteses, a transposição sairá em 2015.

É dever do governo controlar a execução da empreitada e pôr fim à escalada de gastos com a obra.



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