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02/11/2012 | O fim da farsa


Alan Rodrigues - Isto é - 29/10/2012

Biografia do guerrilheiro Carlos Marighella desmonta a versão oficial do assassinato do militante comunista e confirma reportagem de ISTOÉ.

O regime militar instalado no Brasil em 1964 e que se manteve no poder por mais de 20 anos deixou um saldo macabro de 475 mortos - 163 deles ainda desaparecidos. Entre os militantes assassinados nos anos de chumbo está o guerrilheiro Carlos Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), cuja história da morte, em 1969, sempre esteve envolta em mistérios. A versão oficial dá conta de que o guerrilheiro foi abatido dentro de um automóvel depois de sacar uma arma e resistir à prisão. Logo em seguida, ainda de acordo com essa versão, teria acontecido um tiroteio entre as forças públicas e seguranças da ALN, que resultou na morte de outras duas pessoas.

Agora, depois de mais de quatro décadas, o jornalista Mário Magalhães contraria tudo o que já foi publicado sobre o caso. Em "Marighella, o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo" (Companhia das Letras), o autor desmonta a tese oficial ao revelar que Marighella estava desarmado ao ser morto dentro do carro. O jornalista ainda conta na publicação que a troca de tiros entre os policiais e os guerrilheiros nunca aconteceu, pois Marighella estava sozinho. Entre as 588 páginas da obra, Magalhães revela que o ex-deputado comunista não andava armado. Tampouco escoltado por seguranças. "Foi fogo amigo", afirma Magalhães no livro.

Sua convicção está amparada em uma investigação rigorosa com 256 pessoas entrevistadas em nove anos de pesquisa. Ao desmontar a farsa da morte de Marighella, o livro confirma reportagem de ISTOÉ, publicada em março, que revelou o teatro montado pelos policiais para esconder como de fato foi assassinado o líder da ALN. "Eu vi os policiais colocando o corpo do Marighella no banco de trás do carro", afirmou o fotógrafo Sérgio Vital Jorge.

Temido por sua valentia e coragem, Marighella era considerado o inimigo número 1 dos militares. Perseguido pelas forças de repressão nacional e monitorado tanto pela agência de inteligência americana CIA como pela russa KGB, Mariga, como era tratado pelos amigos, foi um dos mais destacados revolucionários do século XX. Os policiais tratavam-no como o Che Guevara nacional. Entre as passagens da vida do guerrilheiro contadas pelo autor, chama a atenção um paradoxo: Marighella não acreditava no triunfo da guerrilha na cidade, mas, sim, que as ações urbanas estavam fadadas ao fracasso. "Pouco antes da morte, ele preparava-se para ir para o meio rural", diz Magalhães.

Para esquadrinhar os passos de Marighella, o autor debruçou-se sobre mais de 600 títulos, além de garimpar material em 32 arquivos públicos e privados espalhados pelo País. Em um dos 43 capítulos, ele mostra, por exemplo, que o chefe da ALN teve que se tratar com remédios e sessões de análise quando se tocou de que o líder russo Josef Stalin era um engodo. A publicação revela também o lado romântico do guerrilheiro, a partir dos conflitos da paixão, ciúmes e agruras de uma vida em sobressalto. "Chequei obsessivamente cada versão, sabedor das traições e idiossincrasias da memória", afirma Magalhães. "O livro não promove o personagem principal da história, ou é um libelo de oposição a ele. O trabalho é uma reportagem que escrutina seus triunfos e tropeços, grandezas e pequenezas, os altos e baixos próprios da espécie humana", diz Magalhães.

Leia um trecho do livro:

37. É melhor ser alegre que ser triste

"Atenção: está no ar a Rádio Libertadora. De qualquer parte do Brasil, para os patriotas de toda parte. Rádio clandestina da revolução. O dever de todo revolucionário é fazer a revolução. Abaixo a ditadura militar."

Em vez das exclamações implícitas na mensagem, o gravador de rolo capta a voz feminina com a dicção contida, e não de pregoeiro. É proposital: se falar com alguns decibéis a mais, Iara Xavier Pereira arrisca desvendar à vizinhança o segredo mais bem guardado dos oponentes armados da ditadura: o paradeiro do inimigo público número um.

"Ouçam Carlos Marighella desmascarando a provocação da carta falsa a dom Agnelo, cardeal de São Paulo", anuncia a garota de dezessete anos.

"O atentado é obra da direita", ele acusa, lendo o script que redigiu. "Seus autores devem ser procurados entre os homens da ditadura militar que inspiram assassinatos como o do padre Henrique Pereira Neto, da equipe de dom Hélder Câmara no Nordeste. Nossa posição ante a Igreja é de absoluto respeito à liberdade religiosa e pela completa separação entre a Igreja e o Estado."

Enquanto o guerrilheiro dá o seu recado, um motor de carro ou motocicleta ronca defronte à casinha branca do subúrbio de Todos os Santos, onde ele se refugia nesse agosto de 1969. Um tom acima da locutora, o foragido pronuncia "fachismo" à antiga, e não "fascismo", e jamais se promove com o título de "comandante". Seu sotaque baiano contrasta com o da carioca quatro décadas mais jovem, que introduz o "Correspondente Libertador":

"Atenção: as gravações em fita das transmissões da Rádio Libertadora devem ser ligadas aos sistemas de alto-falantes dos bairros e subúrbios e irradiadas para o povo, mesmo que para isso tenhamos de empregar a mão armada."

Na Casa de Detenção do Rio de Janeiro, Marighella vivenciou em 1936 e 1937 a distração dos presos políticos com a Rádio Libertadora, cuja reencarnação homônima ele tenta estabelecer como porta-voz guerrilheira. Já dispôs de microfones potentes, como o da Constituinte de 1946. Nos novos tempos, só na marra para ser ouvido. Desde abril de 1969, no início das sessões improvisadas de gravação com Iara, ele tenciona reverberar os manifestos da aln nas praças públicas. O auge do arrojo foi dias atrás, na tomada da Rádio Nacional, que Marighella festeja em um trecho, alertando para riscos excessivos:

"Temos avançado com audácia e com cautela. Não desafiamos o inimigo e só agimos quando estamos perto do êxito. Não travamos combate em campo raso. [...] Reconhecemos que somos infinitamente mais fracos."

Nem por isso abaixam a cabeça, e a organização se tonifica. Na segunda quinzena de agosto de 1969, ele e Iara intercalam apelos com vinhetas instrumentais. Todas pertencem a um disco do Milton Banana Trio que toca na vitrolinha da sala. Das doze faixas, Marighella seleciona quatro. A mais executada é "Está chegando a hora" ("Cielito lindo", no original mexicano), cuja versão jazzística evoca os versos "o dia já vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora". Há "Roda-viva", de Chico Buarque ("Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu"). E "Vesti azul", de Nonato Buzar, hit consagrado por Wilson Simonal ("Vesti azul, minha sorte então mudou"). Por último, uma espécie de epitáfio acidental, ainda que com o long-play exclusivo de melodias, sem as letras: "Samba da bênção", de Vinicius de Moraes e Baden Powell, o da profissão de fé "é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração". Antes e depois das músicas, Iara divulga com acento intimista o manuscrito incendiário de Marighella:

"A Ação Libertadora Nacional organiza a guerrilha, o terrorismo e os assaltos, no combate sem trégua que faz à ditadura militar e ao imperialismo dos Estados Unidos. [...] O lema da Ação Libertadora Nacional é gta. Quer dizer guerrilha, terrorismo e assalto. Gê-tê-a, gê-tê-a, gê-tê-a..."

O mesmo Marighella exorciza o léxico assacado por seus perseguidores:
"A polícia nos acusa de terroristas e assaltantes, mas não somos outra coisa senão revolucionários que lutam à mão armada contra a atual ditadura militar brasileira e o imperialismo norte-americano."

A quimera das emissões guerrilheiras não vingaria, embora as fitas de Marighella tenham viajado, como uma que alcançou o Ceará, com sambas de Martinho da Vila entre as alocuções.

As duas janelas da casa ficam sempre fechadas, não só durante as gravações. Adentra-se na residência humilde passando por uma portinhola escoltada por um muro baixo de pedra e ferro, vencendo um pequeno pátio e caminhando por um corredor à direita. Ali se abre a porta, que dá para a sala, onde Marighella lê e escreve sobre uma mesa. O imóvel sem área livre nos fundos e com muros laterais espichados foi alugado por uma tia de Iara, irmã de sua mãe, Zilda. A menina conheceu o ilustre camarada dos pais quando tinha por volta de três anos. Não se esqueceria de sua "risada gostosa, do fundo da alma". Marighella só ensaia dispensar o humor ao encrencar com as minissaias de Iara:

"Tá faltando pano!"

O zelo paternal com a filha mulher que ele não teve permaneceu quando a aluna do Colégio Pedro ii ingressou na organização. Já que Iara insiste em seguir para Cuba, onde os irmãos Iuri e Alex treinam, Marighella sugere que se dedique ao ensino superior regular da ilha, pois a almejada revolução no Brasil dependerá de profissionais qualificados. A fim de afastá-la das lições armadas, argumenta com a escoliose que a acomete. A adolescente bate pé e decola para o curso de guerrilha na virada de agosto para setembro. Antes, encomenda roupas à costureira, e o Preto, como ela e muitos companheiros chamam Marighella, inventa:

"Quem anda de minissaia é até preso em Cuba."

A bainha de um vestido cai até pouco acima do joelho, demasiado tecido para a moda vigente. Tanto que o secundarista Aldo de Sá Brito provoca:

"Iara vai para o convento, vai ser freira."

Ela reproduz fitas cassete na sala do aparelho de Todos os Santos quando repara outro movimento na sala apertada: ao embalo de uma canção do rádio, Zilda e Marighella dançam juntinhos.



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