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10/06/2012 | O contador de fantasmas


REVISTA ÉPOCA - 10 de Junho de 2012 - Marcelo Rocha e Murilo Ramos

Um pequeno escritório de Brasília cuida de empresas de fachada usadas por Carlinhos Cachoeira e pela Delta. Por essas companhias, passaram cerca de R$ 40 milhões que estão sob investigação

No 1 º andar de um prédio comercial decadente do Cruzeiro, um dos bairros mais antigos de Brasília, funciona o escritório de contabilidade Teccon. A sala mais espaçosa do ambiente, com uma parede verde­escura, decorada com um quadro, é ocupada por Rubmaier Ferreira de Carvalho, de 50 anos. Camisa preta aberta no peito, corrente pendurada no pescoço, Rubmaier trabalha numa mesa cheia de notas fiscais, declarações de bens de clientes e recibos de pagamento. Aparenta ser um profissional liberal que sobrevive de ajudar empresas e pessoas a acertar suas contas. Sua rotina, porém, está associada à atuação do bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com políticos, servidores públicos e a Delta, a principal construtora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo fede­ral. Rubmaier é considerado por investigadores um "empilhador" de empresas de fachada, usadas para despistar o escoamento do dinheiro da rede de corrupção de Cachoeira.

No esquema de Cachoeira, a Polí­cia Federal (PF) identificou dezenas de empresas que se enquadram nes­sa categoria de despiste financeiro. A PF encontrou as digitais de Rubmaier na Brava Construções e na Alberto & Pantoja, as duas maiores empresas de fachada da rede de Cachoeira. Pelas contas bancárias das duas empresas, passaram cerca de R$ 40 milhões en­tre 2010 e 2011. A maior parte desses recursos foi depositada pela Delta. No endereço da Brava e da Alberto & Pan­toja registrado na Receita Federal, exis­te uma oficina mecânica especializada em conserto de carros velhos. É uma ocorrência comum. Empresas como as duas só existem nos registros burocrá­ticos. Não produzem, não têm funcio­nários, nem funcionam no endereço declarado às autoridades. Mas costumam movimentar muito dinheiro. O artifício serve para ocultar ou dificultar o rastreamento do destino de recursos.

Nos documentos da Operação Mon­te Carla, que prendeu Cachoeira e seus comparsas, Rubmaier aparece como contador da Brava Construções. "Sou o responsável por ela no GDF (Gover­no do Distrito Federal)", diz Rubmaier. "Esse (Álvaro Ribeiro da Silva, um dos donos da Brava Construções) eu lembro que veio aqui uma vez. Mas não tenho intimidade com ele." De acordo com a PF, no caso da Alberto & Pantoja, Rubmaier está ligado a Carlos Alberto de Lima, um dos sócios da empresa. Lima é dono de outras duas empresas em que Rubmaier está envolvido: ou ele aparece como contador, ou os telefones das empresas fornecidos à Receita estão registrados em seu nome. No caso da Alberto & Pantoja, Rubmaier não ad­mite vínculos. "Nunca vi essas pessoas (sobre sócios da empresa) diz. "Não fiz contabilidade para elas."

Rubmaier é mais um na quase cen­tena de personagens envolvidos nas operações de Cachoeira. Organiza­ções criminosas sofisticadas têm uma atuação complexa por questão de so­brevivência. É preciso complicar para esconder ilegalidades. Hoje, pelo me­nos, quatro investigações procuram vasculhar e esclarecer os negócios do grupo de Cachoeira. Sua organização começou a ser examinada pela PF na Operação Las Vegas. A investigação so­bre o jogo ilegal em Goiás descobriu o envolvimento de Cachoeira com qua­tro deputados e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). Por causa da lei que garante foro privilegiado a políticos, em 2009 a PF encaminhou seu trabalho ao Ministério Público Federal. O passo seguinte é o mais conhecido. A Operação Monte Carla acumulou mi­lhares de ligações telefônicas gravadas com autorização judicial, entre elas cer­ca de 300 em que Demóstenes conversa com Cachoeira e seus amigos. A Monte Carlo culminou na prisão de Cachoeira e seus comparsas no dia 29 de fevereiro. Unidas, as operações Las Vegas e Monte Carla traçam um panorama da atuação da organização e de suas ramificações na política e em negócios legais para lavar dinheiro.

A Monte Carla explicitou os negó­cios de Cachoeira com a construtora Delta e gerou um filhote, a operação San Michel. Nela, a Polícia Civil do Distrito Federal investigou suspeitas de negócios ilícitos da Delta com o gover­no do Distrito Federal. Em paralelo, o Ministério Público examinava suspeitas de fraude em contratos de empresas de limpeza pública em dois Estados. Uma das envolvidas era a Delta. Os promo­tores obtiveram dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do Ministério da Fazen­da, sobre saques milionários feitos pela Delta e por empresas de fachada que receberam dinheiro da construtora.

Rubmaier é um personagem comum a duas dessas investigações: a Munte Carla e a do lixo. No relatório do Coaf, consta que Rubmaier fez saques de R$ 2,3 milhões entre julho e agosto de 2005. O dinheiro foi retirado das contas da Qualix S.A. Antiga concorrente da Delta na disputa por contratos de coleta de lixo, a Qualix mudou de nome para Sustentare Serviços Ambientais S.A. Em breve, a Sustentare voltará a recolher o lixo no Distrito Federal por causa do rompimento do contrato do governo local com a Delta. Rubmaier nega ter feito saques relacionados à QuaIix.

No mesmo relatório do Coaf apa­rece a Brava, uma das empresas do es­quema de Cachoeira sob os cuidados de Rubmaier. A Brava recebeu R$ 13 milhões da Delta e passou o dinheiro a empresas e pessoas ligadas a Cachoei­ra. Entre os beneficiários está Geovani Pereira da Silva, o responsável pelo controle do caixa da organização de Cachoeira. Geovani é o único foragido da Operação Monte Carlo. Segundo o Coaf, a Brava tinha um faturamento mensal declarado de R$ 1,5 milhão. Mas, somente em abril de 2010, foi identificada uma movimentação supe­rior a R$ 4 milhões pela Brava. Entre os depositantes dessa quantia está Walter­ci de Mello, conhecido empresário do ramo farmacêutico em Goiás e sócio da ex-mulher de Cachoeira. Walterci destinou R$ 55 mil à Brava. Há mais de dois meses, ÉPOCA tenta obter respos­tas da Delta sobre que serviços pres­tados pela Brava Construções e pela Alberto & Pantoja justificariam os pa­gamentos. Na semana passada, a Delta, mais uma vez, não deu explicações. A Delta afirma que "a questão refere GC à atuação do ex-diretor Cláudio Abreu", responsável pela empresa na região Centro-Oeste até a Operação Monte Carlo. Cláudio Abreu está preso.

Embora concentrado no lixo, o re­latório do Coaf traz informações sobre dezenas de operações suspeitas realiza­das pela Delta em diferentes setores, em anos eleitorais. No segundo semestre de 2010, o governo do Pará depositou R$ 8,3 milhões na conta número 0003017524 da Delta Construções. A conta era mantida, segundo o Coaf, numa agência do Banco do Pará em Ananindeua, cidade próxima a Belém. Despertou a atenção o fato de o dinhei­ro ter sido retirado rapidamente.

Outra movimentação considera­da atípica pelo Coaf ocorreu no Rio de Janeiro, em 2006. A partir de uma conta da Delta no extinto Unibanco, o funcionário Alexandre Wilson Pin­to em um mês sacou R$ 5 milhões em operações que variaram entre R$ 75 mil e R$ 99 mil. Saques pequenos podem ser uma tentativa de drible nas autori­dades. Operações acima de R$ 100 mil são automaticamente comunicadas ao Coaf. Em apenas um dia, 27 de setembro de 2006, houve R$ 708 mil em saques. A relação da Delta com um grupo de empresas paulistas também aparece nos registros do Coaf. A Delta destinou cer­ca de R$ 50 milhões a empresas ligadas ao empresário Adir Assad que atuam nos segmentos da construção civil e de eventos. Entre as principais beneficiárias do dinheiro da Delta estão SM Terraple­nagem, Legend Engenheiros e Rock Star Marketing. Em nota, a Legend afirma ter suspendido o contrato com a Delta para aluguel de equipamentos. Mas não ex­plica quais seriam os serviços prestados na área de eventos. Nos papéis do Coaf, o sócio da Delta Fernando Cavendish aparece como responsável e sacador da conta no Pará. Em nota enviada a ÉPOCA, a Delta afirmou que Cavendish jamais fez saques e só constava como responsável pela conta no Pará por ser o presidente da companhia. A Delta não respondeu para que foram feitos os sa­ques no Rio de Janeiro.

No Congresso, a CPI do Cachoeira tenta demonstrar que as empresas li­gadas ao bicheiro ajudavam a injetar dinheiro em campanhas políticas. O principal alvo é o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). O jornalis­ta Luiz Carlos Bordoni comandou as propagandas eleitorais de Perillo no rádio desde 1998. Na semana passa­da, Bordoni disse ter recebido R$ 130 mil por seu trabalho - R$ 40 mil das mãos de Perillo. O jornalista afirma, ainda, que os R$ 90 mil restantes rela­tivos à prestação de serviços só foram quitados em 2011 em duas parcelas. Quem efetuou um dos dois depósitos de R$ 45 mil para Bordoni? A Alberto & Pantoja, aquela ligada ao contador Rubmaier. O dinheiro foi depositado na conta da filha de Bordoni.

O outro depósito de R$ 45 mil foi fei­to pela empresa Adécio & Rafael Cons­trução e Terraplenagem. Segundo a PF, essa empresa é de fachada e, acredite, também tem ligações com o contador Rubmaier. "Eu nunca tinha ouvido falar nessas empresas", diz Bordoni. "Quan­do você recebe dinheiro de campanha, agradece e não fica perguntando qual é a origem do dinheiro." Bord6ni afirma que passou os dados bancários para a transação a Lúcio Fiúza, assessor espe­cial de Perillo. Depois que a história veio à tona na semana passada, Fiúza deixou o governo. O depoimento de Perillo na CPI do Cachoeira está mar­cado para a terça-feira dia 12. Perillo terá de explicar as suspeitas de ter usado empresas próximas a Cachoeira para saldar dívidas eleitorais e a venda de sua casa, num bairro de luxo de Goiânia. Na semana passada, surgiram informações desencontradas sobre o negócio. Em uma das versões, Perillo teria recebido R$ 1 milhão em espécie.

A gestão de Perillo é acusada de co­laborar com os interesses de Cachoeira. No mandato de Perillo, o comando da Polícia Civil dificultou uma investigação que poderia atingir Cachoeira. O gover­no prorrogou um contrato com a Delta para aluguel de carros, mesmo após a deflagração da Operação Monte Carlo. Outro governador que será questiona­do pela CPI é o petista Agnelo Queiroz (DF). A investigação da Polícia Fede­ral mostra que os principais assessores de Agnelo mantinham contatos com a turma de Cachoeira. Na mesa, estavam os interesses da Delta nos contratos de lixo em Brasília. Rubmaier é apenas um nome numa complexa teia de conexões que pode envolver autoridades de alto escalão. Trabalho suficiente para várias CPIs e investigações policiais.



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