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09/06/2012 | FANTASMAS DA DELTA FINANCIARAM POLÍTICOS


EMPRESAS FANTASMAS PAGAVAM CAMPANHAS

DENISE ROTHENBURG e JOSIE JERONIMO - Correio Braziliense - 03/06/2012

Quebra de sigilo bancário de Cláudio Abreu, ex-diretor da empresa, revela que, três dias antes do segundo turno das eleições de 2010, ele recebeu transferências e repassou valores a firmas de fachada, três delas no DF, que, por sua vez, entregavam o dinheiro a campanhas

Delta transferia recursos para companhias de fachada, que repassavam o dinheiro a políticos. Movimento se intensificou às vésperas do segundo turno das eleições de 2010, quando ex-diretor da empreiteira ligada a Carlinhos Cachoeira sacou grandes volumes em espécie

À medida em que o mapa do caminho do dinheiro da quadrilha de Carlinhos Cachoeira é desvendado, relações entre as contas bancárias dos comparsas dos bicheiros, empresas fantasmas e caixas eleitorais ganham evidência. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou grande volume de saques em dinheiro vivo às vésperas da eleição de 2010. A quebra do sigilo bancário do ex-diretor da Delta Cláudio Abreu mostra que três dias antes do segundo turno, o empresário recebeu duas transferências, no valor total de R$ 600 mil, do CNPJ da Construtora Rio Tocantins (CRT), firma registrada em nome de Rossine Guimarães, sócio de Cachoeira.

Após receber as transferências, Cláudio Abreu repassou R$ 275 mil para um dos donos da Ginga Rara, empresa de publicidade que recebeu R$ 5,1 milhões em contratos com o governo de Tocantins. Ainda no fim de outubro, outros R$ 300 mil foram sacados em espécie pelo ex-diretor da Delta em uma agência de Catalão (GO).

O relatório do Coaf aponta que, semanas após os saques realizados às vésperas da eleição, a conta de Abreu voltou a ter baixa movimentação, sendo usada apenas para pagamento de despesas, como cartão de crédito, água e luz, com depósitos máximos de R$ 2,5 mil. Integrantes da CPI solicitaram à Polícia de Goiás nomes de presos em flagrante envolvidos em compra de votos nas eleições do estado para cruzar com dados de integrantes da quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Lista de depósitos feitos pela Delta a empresas de fachada que têm o CNPJ explorado pelo esquema de Cachoeira mostra que, das 29 companhias do chamado "Deltaduto", como apelidaram os parlamentares da CPI, quatro atuaram como doadores ou fornecedoras formais de campanhas políticas, repassando recursos ao senador Demóstenes Torres (sem partido), ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e ao deputado Sandes Júnior (PP-GO). Mas a maior parte das firmas foi criada apenas para abrir contas bancárias em nome de pessoas jurídicas, com o propósito de receber depósitos e movimentar dinheiro em espécie.

Esquema

O Correio percorreu a sede de algumas das firmas do Deltaduto, levantou os históricos de movimentações empresariais e constatou que a maior parte das beneficiárias da Delta Construções não tem atividade produtiva - funcionam apenas para empresar o CNPJ para a quadrilha do contraventor.

Os registros das empresas em juntas comerciais de pelo menos cinco unidades da Federação (Distrito Federal, Goiás, Tocantins, Paraná e São Paulo) revelam a estratégia orquestrada de montar uma rede de CNPJs para fins de lavagem de dinheiro. Onze das 29 firmas beneficiárias das transferências da Delta sofreram alterações cadastrais vinculadas ao quadro societário e à descrição de atividade econômica na mesma data: 3 de novembro de 2005. Investigações da Polícia Federal registraram o contador da quadrilha, Geovani Pereira da Silva, negociando a compra de CNPJs por R$ 5 mil.

A WCR Produção e Comunicação, que também consta na lista do Deltaduto, recebeu R$ 113 mil. Na prestação de contas de Vanderlan Cardoso (candidato do PR ao governo de Goiás em 2010), a empresa aparece como contratada do comitê, por prestações de serviços. No segundo turno, Vanderlan foi assediado por Perillo e Iris Rezende (PMDB), que buscavam seu apoio político.

"Essa questão das empresas precisa ser esclarecida"
Luiz Pitiman, deputado do PMDB-DF, membro da CPI do Cachoeira

"O Gleyb foi o corretor, ele tinha uma procuração. Nós vendemos um terreno e recebemos por essa venda"
Célia, mulher do proprietário da Plastilider, sobre a venda de um imóvel para o operador do esquema de Cachoeira

Parceiras suspeitas

Confira as empresas que receberam dinheiro da Delta, segundo as investigações

Mapa Construções
A empreiteira, que recebeu R$ 1 milhão da Delta, de acordo com a análise das contas da empreiteira, funciona em uma sala de 30 metros quadrados em uma galeria no Setor Nova Suíça, em Goiânia. Na saleta, dois funcionários atenderam a reportagem e disseram que "só o senhor Carlos" poderia falar pela empresa. A firma está registrada em nome de um dos irmãos de Cachoeira, Paulo Roberto de Almeida Ramos.

M e M Plásticos
A empresa funciona no Polo de Modas do Guará II, em um prédio de quitinetes. Na sala do térreo, onde supostamente ficaria a empresa, as portas ficam fechadas, não há identificação da firma e um funcionário afirmou que não há catálogo de produtos vendidos. A empresa recebeu R$ 216,6 mil da Delta.

Plastilider
Fica no mesmo endereço da M e M Plásticos. Na sala, há um banner pendurado com croqui do que seria a sede da firma. Mulher que se apresentou como companheira do dono da empresa - registrada em nome de Matheus Monteiro - disse que a sede será construída, no futuro, em Abadiânia (GO).

WCR Produção e Comunicação
A empresa que prestou serviços para Vanderlan Cardoso nas eleições de 2010 recebeu R$ 113 mil em recursos do Deltaduto.

Ginga Rara
A empresa de publicidade de Goiás recebeu repasse de R$ 275 de uma das contas do ex-diretor da Delta Cláudio Abreu. Atualmente, a firma tem contrato de R$ 5,1 milhões com o governo de Tocantins.

Rio Vermelho Distribuidora
A empresa, que fez doações de
R$ 450 mil para o governador Marconi Perillo (PSDB), recebeu R$ 60 mil da Delta. A firma tem registros em Anápolis (GO) e em São Paulo. Um dos sócios é Michel Aidar Neto, apresentado pelas investigações da Polícia Federal como amigo de Cachoeira.

JR Construções
A empresa é uma das mais novas aquisições no esquema de compra de CNPJs da quadrilha. Foi fundada em fevereiro de 2010, mas concluiu registro formal em março deste ano. Apesar de existir há mais de dois anos, não apresenta movimentações empresariais. A JR recebeu
R$ 2,4 milhões da Delta.

Excitant
A empresa, que emitiu os cheques que pagaram a casa que Marconi Perillo teria vendido a Cachoeira, é registrada em São Paulo e recebeu R$ 250 mil da Delta.



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