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09/06/2012 | Da comédia à tragédia


08 de junho de 2012 - NELSON MOTTA - O Estado de S.Paulo

Ninguém se lembra mais, mas em 2006 a Grécia lançava uma contabilidade inovadora de suas contas públicas que provocava espanto e riso, mas já era uma indicação do estilo que a levaria à sua futura tragédia. Na época, foi só uma alegria para os cronistas que vivem atrás de um assunto bizarro para comentar. Eu mesmo me diverti muito tentando divertir os leitores:

"Chega de hipocrisia. Vamos seguir o exemplo da Grécia, berço da democracia e da comédia, que por amor à verdade e aos números - e para entrar na União Europeia e na zona do euro - decidiu incluir oficialmente o contrabando, a prostituição, as propinas, a pirataria, o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro, o mercado negro e o caixa 2 na estimativa do seu Produto Interno Bruto, que é o conjunto de todas as riquezas produzidas pelo país no ano. Afinal, dinheiro é dinheiro, por que as dracmas do PIB precisariam de bons antecedentes?

Se essas riquezas foram produzidas legal ou ilegalmente era um detalhe que não anularia o fato econômico. Essa montanha de dinheiro, ainda que sujo, foi produzida, existe realmente, entrou na roda da atividade econômica, comprou bens, pagou salários e serviços, e acabou até pagando impostos indiretamente. Os gregos acreditam que com esses critérios realistas e filosoficamente cínicos o PIB do país pode aumentar nominalmente em 10%."

Era uma piada pronta e também um gancho irresistível para imaginar a sua aplicação no Brasil, com nossos volumes estonteantes de dinheiro sujo em circulação. O PIB daria um salto espetacular, ninguém mais se alarmaria com o tamanho da dívida pública em relação a ele. Os cálculos de renda per capita teriam que ser refeitos e os programas sociais redirecionados. Esse "pibão sem preconceitos" poderia permitir um afrouxamento da política fiscal e um aumento dos gastos públicos, e até nos elevar a quinta economia do mundo.

Em cinco anos o que era comédia virou tragédia. Gastando mais do que arrecadava, devendo mais do que podia pagar, maquiando contas, mentindo aos credores, a Grécia quebrou. E a conta está sendo rachada com o mundo inteiro.



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