Artigo

Ventos Artificiais

Silvia Mathilde Pinheiro Machado
pedagoga de profissão, escritora por paixão e inquieta por natureza. Preciso expor sempre meus incomodos. As vezes falo, mas percebi que a escrita ecoa ideias por precipicios inimaginaveis, então escrevo, para quem sabe o dia ser parte da historia dessa nova era de pensadores que tanto desejo ver.



Os dias chegavam sigilosos, avezados. 

Meu peito já não chorava nem cantava. 

Vivia com o fato de ser órfão acostumado a ausência de tantos outros sentimentos que o racional tomara o comando da vida. 

Os livros eram os mesmos, empoeirados de sempre, as flores eram as mesmas, do campo, e o sorvete com gosto habitual de cereja. 

O caminho seguia o curso familiar, acostumado, quando a improbabilidade, minha velha amiga, imundou todo o percurso e o trouxe com olhos que sorriem. 

Me assustei, como uma coelha xucra receosa pela captura. 

Porem você era bom em esperar. 

Os dias que seguiram foram se abrindo em outras cores, em novos livros, e sabor pistache.

 O desacostumado cotidiano foi se fazendo aconchegante, como o cheio de terra molhada, e quando me vi estava nua, diante de mim mesma, exposta , inegavelmente exultante. 

Com tantos encontros, com tantos sabores e tantos prazeres, lá estávamos nós, densamente juntos. Nossa comunicação fluía em todos os poros, em todos os gestos. O que sentíamos era novo de mais, forte demais, para se dar nome. 

Eu te ansiava como a estiagem pelo temporal. E lá estava você com seus trovões no meu céu azul ensolarado, molhando tudo, fazendo nascer. 

Havia fome e sede em nós, de nós.

Você, exausto, recostado, adormecido. 

E eu, a observar com ciumes os ventos artificiais astuciosos que tocavam sua pele sem incomodar. Procurei saber deles a configuração e a força ideal para os teus suspiros . Mas o vento te tocava a mais tempo, com intimo afeito . 

Eu era mais inflame, mais chama, aprendendo a ser mais brisa. 

Só o cotidiano irá me ensinar a tocar sua alma, afagar seu coração. 

Então, estamos a ventanejar nosso futuro, com a sutileza do sopro e a intensidade do furacão .

Sejamos nós, a bussola do tempo que move a vida a flertar com a felicidade. 

Seja meu insuperável.

 Serei sua inseparável.





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