Artigo

Trabalho, competitividade e escolhas do País*

José Pastore
é Doutor Honoris Causa em Ciência e Ph. D. em sociologia pela University of Wisconsin (EUA). É professor titular da Faculdade de Economia e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo. É pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e consultor em relações do trabalho e recursos humanos.



* Publicado no jornal O Estado de S. Paulo - 17/01/2012

Segundo dados publicados no Estadão de 23/12/2011  e referentes a 2010, o custo do fator trabalho na indústria brasileira é  um dos mais baixos entre os 34 países normalmente estudados pelo  Ministério do Trabalho dos Estados Unidos. No Brasil, o salário/hora  médio do setor manufatureiro ficou em torno de US$ 10. Nos Estados  Unidos, foi mais de US$ 34; na Holanda, US$ 40; na Alemanha, US$ 44; e  na Noruega, US$ 57 (todos com encargos).

Nessa comparação, a  indústria brasileira estaria em condições de competir no campo do  trabalho com larga margem. Ocorre, porém, que os países que mais nos  incomodam (tirando do Brasil milhões de bons empregos) não são esses, e,  sim, os que têm custos trabalhistas inferiores, em especial do Leste  Europeu, da Ásia e da América Central. O salário médio industrial da  Estônia, que tem alto nível de educação e de produtividade, é menor que o  brasileiro - US$ 9,47 por hora; na Hungria é de US$ 8,40; em Taiwan,  US$ 8,36; na Polônia, US$ 8,01; no México, US$ 6,23; nas Filipinas, US$  1,90; e na China, US$ 1,36 (Bureau of Labor Statistics, International  comparisons of hourly compensation costs in manufacturing, Washington,  2011).

O Brasil compete pouco com os países de alta sofisticação  tecnológica e elevada produtividade do trabalho como é o caso da  Alemanha, Suíça, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Japão, Inglaterra e outros.  A concorrência é acirrada com as nações emergentes.

O Brasil  ocupou o segundo lugar entre os países que tiveram maior aumento de  salário entre 2009 e 2010, superado apenas pela Argentina. O custo do  trabalho foi afetado também por um rápido aumento dos benefícios  negociados, dos pisos salariais e das despesas criadas por intervenções  do Estado, como é o caso do aumento do seguro de acidentes, das  cobranças de contribuições sociais sobre verbas indenizatórias, das  incertezas dos nexos causais nas doenças profissionais, das licenças  ampliadas, do novo aviso prévio, da insegurança do trabalho a distância e  terceirizado e várias outras.

É verdade que persiste entre nós um  forte dualismo: uma parcela imensa da força de trabalho ganha pouco e  trabalha na informalidade. Mas, no campo industrial, essa parcela é  pequena e cadente. Ali, os profissionais especializados usufruem  salários e benefícios que vão muito além da média de US$ 10.

Para o  setor industrial o Brasil deixou de ser competitivo no campo do  trabalho. Em certa medida isso vale também para o setor agrícola e o de  serviços quando se trata de profissionais qualificados e que dominam as  tecnologias modernas.

Os últimos dados sobre os Estados Unidos  revelam que o setor privado vem reduzindo salários de admissão não só  por força da crise, mas também para atrair de volta uma parte dos  empregos que foram para a Ásia. Ao longo de 2010 foram muitas as novas  contratações por US$ 12 a US$ 19 por hora, ante US$ 21 a US$ 32 dos  empregados mais antigos. Isso ocorre até na indústria automobilística,  que sempre foi o paraíso dos altos salários. Os americanos entenderam  ser melhor perder alguns dólares nos salários para reter vários milhões  de empregos. Esse foi o tema de uma série de artigos bem documentados do  The New York Times e que recebeu o sugestivo título de Working for  less.

A continuar no ritmo atual, o custo do trabalho no Brasil  vai se aproximar do dos Estados Unidos, podendo até ultrapassar, quando  se levar em conta o diferencial de produtividade. Muitos já dizem que,  em vários setores, o custo unitário do trabalho está mais alto no Brasil  do que na América. Estamos diante de um quadro em que a "generosidade"  das leis, das ações sindicais e das sentenças judiciais se transforma  rapidamente em prejudicial perversidade. Este é um tempo de escolha. Não  devemos desprezar as lições dos países em crise.






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