Artigo

Reinventar o capitalismo*

Merval Pereira
jornalista, colunista de vários jornais como O Globo e A Gazeta, comentarista da Rádio CBN, da TV Globo e da Globo News.



* Publicado no jornal O Globo - 26/01/2012

O clima aqui em Davos no primeiro dia  de Fórum Econômico Mundial, se não chega a ser de pessimismo, é muito  marcado pela necessidade de rever atitudes e procedimentos para que o  capitalismo continue sendo o melhor sistema econômico disponível.

Houve um consenso em diversos painéis de que o capitalismo precisa prestar melhores serviços à sociedade.

A tendência ao mea-culpa só foi alterada diante de um líder trabalhista sem papas na língua.

Ninguém  foi tão contundente e radical quanto o australiano Sharan Burrow,  secretáriogeral da União Internacional do Comércio em Bruxelas, que  disse que "o capitalismo faliu a sociedade", citando como argumento o  aumento da desigualdade e o alto desemprego, especialmente entre os  jovens.

Para ele, a comunidade de negócios "perdeu o senso moral".

Se  não fossem as palavras radicais, a receita de Burrow estaria no mesmo  compasso das diversas manifestações que se ouve aqui em Davos este ano:  "Precisamos redesenhar o modelo, reajustálo.

Parar com a ganância".

David  M. Rubenstein, cofundador e diretor-executivo do Carlyle Group, uma  firma de investimentos globais, parafraseou Winston Churchill para  rebater o líder trabalhista australiano, garantindo que o capitalismo é o  pior sistema econômico à exceção de todos os outros.

Para garantir  que o capitalismo seja justo, vamos focar em aperfeiçoar as leis e  regulações, investir em educação, e promover inovação e criatividade,  receitou Rubenstein.

Inovação, por sinal, foi uma palavra muito usada  durante os debates, como sendo uma das saídas para a crise econômica  internacional.

Ben J. Verwaayen, CEO da Alcatel-Lucent, foi cortante:  "Precisamos falar sobre inovação, sustentabilidade e reformas, não  sobre corporações e ganância. Temos que falar sobre criação de empregos,  e não sobre segurança no emprego".

O professor da Business School da  Universidade de Chicago Raghuram G. Rajan salientou que o aumento da  desigualdade acontece não por má gestão corporativa, mas devido a forças  mais profundas, como o desenvolvimento tecnológico, o surgimento de um  mercado globalizado e a necessidade de inovação: "O debate correto é  sobre como conseguimos a inovação e a criatividade de que necessitamos".

A necessidade de inovação também foi a parte mais importante de um painel sobre as necessidade das empresas atuais.

O  consenso foi de que as empresas precisam mudar a maneira de fazer  negócios se quiserem enfrentar com sucesso os desafios que se apresentam  daqui por diante.

O presidente da Cisco, John T. Chambers ressaltou  que nos anos 1990 sua empresa, líder em produtos de interconecção para  empresas e pessoas, tinha cerca de cem competidores, e hoje apenas dois  continuam no mercado.

Se uma empresa continua a fazer o que sempre  fez, alertou, será passada para trás inevitavelmente. O tempo de vida  útil de empresas incapazes de modificar seus procedimentos é de 15 anos,  concordaram os painelistas, dando como exemplo a Kodak, que  recentemente declarou concordata.

Duncan Niederauer, CEO da Nyse Euronext, expressou uma opinião otimista por um lado, mas desafiante por outro.

Para  ele, a necessidade de uma reinvenção permanente para as empresas não  existe apenas devido à crise econômica, que ele vê como um problema de  curto prazo que será superado, mas à tecnologia e ao surgimento de  centenas de milhões de novos consumidores nos mercados emergentes.

Foi  ressaltado também que num mundo interconectado como o de hoje, em que  as notícias estão em tempo real na casa dos cidadãos, uma empresa não  pode apenas fingir que é uma corporação-cidadã, pois será denunciada. As  empresas precisam fazer o bem mas necessitam ser percebidas como tal.

Ser  socialmente responsável e sustentável do ponto de vista ecológico  depende fundamentalmente de conseguir recrutar os melhores talentos,  adequados às exigências dos novos tempos.

Esses talentos, especialmente os jovens, serão também atraídos por empresas modernas e preocupadas com essas questões.

O  megainvestidor George Soros, que fez questão de garantir que não  especulava mais no mercado financeiro, considera que o plano do Banco  Central Europeu de refinanciamento de longo prazo, que dá aos bancos  ilimitada liquidez, mas não aos Estados diretamente, vai fazer com que  os países e seus bancos continuem no limite de uma potencial  insolvência.

Ele é um crítico severo do que chama de imposição da  Alemanha, e diz que os cortes de gastos vão levar a Europa a uma  armadilha deflacionária.

E quando acontece tanto a inflação quanto a deflação é sinal de que as coisas estão erradas.

Mesmo  afirmando que entende a preocupação da Alemanha com o trauma da  hiperinflação, Soros disse que ela está levando os membros da União  Europeia a uma perigosa dinâmica política, que em vez de integrá-los vai  criar um clima de recriminações mútuas.

Para ele, há um perigo real  de que o euro mine a coesão do grupo europeu. Deterioração econômica e  política e desintegração social vão se reforçar mutuamente nesse caso,  advertiu George Soros, que propugnou uma saída mais "democrática" para a  crise europeia, numa clara crítica à hegemonia alemã.

Embora falasse  sobre a situação da Europa, Soros, perguntado, declarou seu apoio ao  plano do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de aumentar os  impostos para os muito ricos, e lembrou que está entre os bilionários  que se colocaram favoráveis a pagar mais impostos.

Ele também se  disse convencido de que o governo da China já está preparando o povo  para uma época de menor crescimento econômico, o que terá consequências  para o resto do mundo.






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