Artigo

Os quatro pilares da imprensa livre*

Albert Camus
(Mondovi, 7 de novembro de 1913 - Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra.



* Publicado no jornal Folha de S. Paulo - 25/03/2012

O dever de um jornalista em 1939 no manifesto censurado de Camus 

RESUMO Em manifesto de 1939 que só veio a ser publicado na semana  passada, o escritor francês propõe a discussão sobre liberdade de  imprensa em termos individuais e formula os quatro recursos de que o  jornalista deve lançar mão para manter-se livre, mesmo sob censura: a  lucidez, a recusa, a ironia e a obstinação.

ALBERT CAMUS, tradução PAULO WERNECK

A história do manifesto

PUBLICADO PELA primeira vez no último domingo (18) pelo jornal  "Le Monde", o manifesto de Camus deveria ter aparecido na edição de 25  de novembro de 1939 do jornal "Le Soir Républicain".

Coeditado por Albert Camus em Argel, o jornal se resumia a uma página  frente e verso. Teve só 117 edições: em janeiro de 1940, foi proibido  pelo governador de Argel.

Ao mesmo tempo que, em Paris, a imprensa denunciava a manipulação da  informação feita por Hitler, os jornalistas da maior colônia francesa  (que conquistaria sua independência em 1962) eram submetidos à censura  oficial.

A contradição não escapou ao jovem Camus, então com 26 anos, que a denunciava em seus textos no "Le Soir Républicain".

Francês nascido na Argélia, pacifista engajado na luta pela liberdade em  sua terra natal, o Nobel de Literatura de 1957 fez das contradições do  colonialismo um dos pilares de sua ficção, em romances como "O  Estrangeiro".

A repórter Macha Séry, do "Le Monde", localizou o texto nos Archives  Nationales d"Outre-Mer, em Aix-en-Provence. Embora não esteja assinado, o  texto teve sua autenticidade comprovada, afirmaram à Folha os herdeiros  de Camus.

 

É DIFÍCIL, HOJE em dia, evocar a liberdade de imprensa sem ser  tachado de extravagante, acusado de ser Mata Hari, sem se ver convencido  de ser sobrinho de Stálin.

No entanto, essa liberdade, entre outras, é só um dos rostos da  liberdade pura e simples, e nossa obstinação em defendê-la será  compreendida se houver boa vontade para admitir que não há outra maneira  de vencer de fato a guerra.

É certo que toda liberdade tem seus limites. É preciso, ainda, que eles  sejam reconhecidos. Sobre os obstáculos que hoje são postos à liberdade  de pensamento, aliás, já dissemos tudo o que foi possível dizer e  diremos novamente, à saciedade, tudo o que nos será possível dizer.

Em particular, uma vez imposto o princípio da censura, jamais nos  espantará o bastante ver que a reprodução de textos publicados na França  e examinados pelos censores da metrópole seja proibida no "Soir  Républicain" [jornal publicado em Argel, do qual Albert Camus era  redator-chefe], por exemplo.

O fato de que, a esse respeito, um jornal dependa do humor ou da  competência de um homem demonstra melhor do que qualquer outra coisa o  grau de inconsciência a que chegamos.

Um dos bons preceitos de uma filosofia digna desse nome é o de jamais se  derramar em lamentações inúteis diante de um estado de fato, que não  pode mais ser evitado.

A questão na França não é mais a de saber como preservar as liberdades  da imprensa. É a de procurar saber como, diante da supressão dessas  liberdades, um jornalista pode permanecer livre. O problema não  interessa mais à coletividade. Ele diz respeito ao indivíduo.

MEIOS E justamente o que nos agradaria definir aqui são as  condições e os meios pelos quais, no próprio seio da guerra e de suas  servidões, a liberdade pode ser não somente preservada, mas também  manifestada. Esses meios são quatro: a lucidez, a recusa, a ironia e a  obstinação.

A lucidez pressupõe a resistência aos movimentos do ódio e ao culto da  fatalidade. No mundo de nossa experiência, é certo que tudo pode ser  evitado. A própria guerra, que é um fenômeno humano, pode ser a todo  momento evitada ou interrompida por meios humanos.

Basta conhecer a história dos últimos anos da política europeia para nos  convencermos de que a guerra, seja ela qual for, tem causas óbvias.  Essa visão clara das coisas exclui o ódio cego e o desespero que deixa  estar.

Um jornalista livre, em 1939, não se desespera e luta pelo que acredita  ser verdadeiro como se a sua ação pudesse influenciar o curso dos  acontecimentos. Não publica nada que possa incitar ao ódio ou provocar o  desespero. Tudo isso está em seu poder.

Em face da maré de besteiras, é preciso igualmente opor algumas recusas.  Nenhuma das limitações do mundo leva um espírito um pouco limpo a  aceitar ser desonesto. Ora, por menos que conheçamos o mecanismo das  informações, é fácil nos assegurarmos da autenticidade de uma notícia.

É a isso que um jornalista livre deve dedicar a sua atenção. Pois, se  ele não pode dizer o que pensa, pode não dizer o que não pensa ou o que  acredita ser falso. E é assim que se mede um jornal livre: tanto pelo  que diz como pelo que não diz. Essa liberdade bem negativa será, de  longe, a mais importante de todas, se soubermos mantê-la.

Pois ela prepara o advento da verdadeira liberdade. Em consequência  disso, um jornal independente dá a fonte de suas informações, ajuda o  público a avaliá-las, repudia as cascatas, suprime as injúrias,  compensa, em comentários, a uniformização das informações e, em resumo,  serve à verdade na medida humana de suas forças. Essa medida, por mais  relativa que seja, lhe permite ao menos recusar aquilo que nenhuma força  no mundo pode fazê-lo aceitar: servir à mentira.

Chegamos, assim, à ironia. Podemos estabelecer que, em princípio, um  espírito que tem gosto e os meios para impor limitações é impermeável à  ironia. Não vemos Hitler, para tomar apenas um exemplo entre outros,  utilizar a ironia socrática.

Conclui-se que a ironia permanece como uma arma sem precedentes contra  os poderosos demais. Ela completa a recusa na medida em que permite não  rejeitar o que é falso, mas muitas vezes dizer o que é verdadeiro. Um  jornalista livre, em 1939, não tem muitas ilusões sobre a inteligência  daqueles que o oprimem. Ele é pessimista no que diz respeito ao homem.

A cada dez verdades ditas em tom dogmático, nove são censuradas. Essa  disposição ilustra com bastante exatidão as possibilidades da  inteligência humana.

Ela explica também que jornais franceses como "Le Merle" ou "Le Canard  Enchaîné" [jornais satíricos parisienses] possam publicar regularmente  os corajosos artigos que conhecemos. Um jornalista livre, em 1939, é  portanto necessariamente irônico, ainda que, volta e meia, a  contragosto. Mas a verdade e a liberdade são amantes exigentes, pois têm  poucos apreciadores.

OBSTINAÇÃO Com essa atitude de espírito brevemente definida, é  claro que ela não se poderia sustentar de modo eficaz sem um mínimo de  obstinação. Não são poucos os obstáculos à liberdade de expressão. Não  são os mais graves deles que poderão desencorajar um espírito. Pois as  ameaças, os empastelamentos, as perseguições geralmente obtêm na França o  efeito oposto ao que propõem.

É preciso reconhecer, porém, que há obstáculos desencorajadores: a  constância na tolice, a covardia organizada, a ininteligência agressiva  -e por aí vai. Eis o grande obstáculo sobre o qual é preciso triunfar. A  obstinação é aqui uma virtude cardeal. Por um paradoxo curioso, porém  óbvio, ela se põe a serviço da objetividade e da tolerância.

Eis, portanto, um conjunto de regras para preservar a liberdade até  mesmo dentro da servidão. E depois?, diremos. Depois? Não sejamos tão  apressados.

Se cada francês quiser apenas manter em sua esfera tudo o que acredita  ser verdadeiro e justo, se quiser ajudar de sua frágil parte a  manutenção da liberdade, resistir ao abandono e divulgar sua vontade,  então, e somente então, essa guerra estará ganha, no sentido profundo da  palavra.

Sim, é muitas vezes a contragosto que um espírito livre deste século faz  sentir a sua ironia. O que encontrar de agradável neste mundo  inflamado? A virtude do homem, porém, é a de se manter diante de tudo o  que o nega.

Ninguém quer recomeçar em 25 anos a dupla experiência de 1914 e de 1939.  É preciso, portanto, testar um método ainda novo em folha, que seria a  justiça e a generosidade. Mas estas só se exprimem nos corações já  livres e nos espíritos ainda clarividentes.

Formar esses corações e esses espíritos, ou melhor, despertá-los, é a  tarefa ao mesmo tempo modesta e ambiciosa que se apresenta ao homem  independente. É preciso se aferrar a isso sem olhar para mais à frente. A  história vai levar em conta ou não esses esforços. Mas eles terão sido  feitos.

Se ele [jornalista] não pode dizer o que pensa, pode não dizer o que  não pensa ou o que acredita ser falso. E é assim que se mede um jornal  livre: tanto pelo que diz como pelo que não diz

Não vemos Hitler, para tomar apenas um exemplo entre outros, utilizar  a ironia socrática. Um jornalista livre, em 1939, é portanto  necessariamente irônico

 

 Publicado com a gentil cessão de Catherine Camus.

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