Artigo

Os 300 de Vitória*

Robson Louzada Lopes
é juiz de Direito de Cachoeiro de Itapemirim.



* Publicado no jornal A Gazeta, 14/01/2012

 Há que se ressaltar a coragem e o valor da cidadania compartilhada pelos estudantes de Vitória, que, ao contrário do brasileiro tradicional, reagem aos atos estatais dos quais discordam e mostram que nem todos estão afastados da arena pública. Eventual desvio de conduta durante o ato não pode servir para retirar a credibilidade do movimento.

Mas há uma frustração. Nenhum pedreiro, padeiro, churrasqueiro, vendedor de picolé, sapateiro, comerciário, prestador de serviço é visto em meio ao ato exigência de redução de tarifa. Será que somente os estudantes discordam do aumento? Se a resposta é negativa, por que razão os afetados não aderem ao movimento e constituem uma cidadania mobilizada?

É, realmente, frustrante constatar que o povo brasileiro se empenha tanto para realizar o carnaval por meio de majestosos desfiles, para realizar a copa do mundo, as olimpíadas, para caminhar 50 km em homenagem a um jesuíta, mas não pode dispor de uns momentos de sua vida para refletir sobre cidadania e mostrar indignação por algo que lhe afeta diretamente o salário.

Não me venha dizer que o povo precisa trabalhar e, em razão disso, não pode dispor de tempo para manifestações, pois quando a seleção brasileira de futebol está em campo, tudo para e ninguém alega que precisa trabalhar. A difícil verdade é que somos apáticos para os movimentos políticos. Temos a crença infelizmente propalada que a manifestação pública é para "desocupados" e "baderneiros".

A população que é afetada pelo aumento e que poderia ser beneficiada pela manifestação pública é a primeira a tecer críticas negativas e a protestar pelo seu direito de "ir e vir". Que paradoxo! O protesto envolve exatamente o direito de "ir e vir" no transporte público sem pagar um valor injusto por isso. É certo que trezentas pessoas de um movimento composto por estudantes terão dificuldades para adquirir força política diante da crença de que protesto é "crime", mas há que se reconhecer a coragem e os princípios dessas pessoas em representar interesses que também são de outros.

Enquanto o apático brasileiro tradicional critica seus atos e muitos outros nesse mês de janeiro curtem a cerveja gelada, a mulher bonita e o futebol nas areias das praias, os "300 de Vitória" tentam fazer aquilo que é dever de todos: SER CIDADÃO. Mas até quando a apatia política vai permitir essa luta isolada? Até quando vamos abandonar nossos estudantes como fora feito com os 300 de Esparta?






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