Artigo

Obama testa ataque aos ricos*

Paulo Rabello de Castro
é Chairman da SR Rating e presidente do Conselho Estratégico da Fecomercio.



* Publicado no jornal Brasil Econômico - 27/01/2012

O movimento popular "Occupy Wall Street" acabou colhendo um resultado inesperado com o discurso de Obama sobre A Situação da Nação.

Este é um relatório anual que o presidente americano apresenta ao Congresso e ao país nesta época do ano.

É o último de Obama antes das eleições de novembro, quando tentará sua reeleição.

O democrata usou bem a oportunidade para marcar terreno no futuro debate eleitoral.

Ele sai como defensor do americano médio, que pagou a conta da crise e levou desemprego para casa.

Obama aproveitou para atacar duramente a desigualdade fiscal entre americanos ricos, que pagam uma taxa efetiva em torno de 15% de imposto sobre sua renda anual, enquanto a taxa efetiva sobre o assalariado acrescenta mais uns 10 pontos de percentagem sobre a taxa dos ricos.

Mitt Romney, candidato republicano à frente nas pesquisas, é um ricaço que finalmente liberou para o público sua declaração de renda: feitas as contas, a taxa efetiva de imposto de Romney, em 2010, segundo o New York Times, foi de 13, 9%. Atenção: Romney está na faixa dos 0,1% mais ricos dos Estados Unidos.

O debate sobre a injustiça tributária nos EUA vai dar pano para manga.

Obama quer passar uma "Regra Buffett", apelidada assim em tributo ao megainvestidor Warren Buffett que, num artigo de jornal, mostrou que paga menos imposto, relativamente, que sua secretária, Debbie Bosanek.

Obama pôs a sra. Bosanek sentada ao lado da primeira-dama durante seu discurso da Situação da Nação.

A Regra Buffett seria fazer qualquer contribuinte com rendimento anual superior a US$ 1 milhão pagar uma taxa efetiva de IR de 30%.

O outro lado da moeda são os empregos perdidos para os chineses, pelo deslocamento de milhares de indústrias americanas para a Ásia, especialmente China.

Essa exportação de empregos ganha benefícios fiscais! (Parece o Brasil.).

Após três anos no cargo, Obama sentiu "cair a ficha" dessa maluquice contra o trabalhador de seu país.

Esta é, no final da linha, a raiz legítima do protesto que toma conta das praças da Big Apple.

O povo entendeu quanto está sendo lesado, sentimento que demora a ocorrer, ficando latente enquanto as coisas vão bem pelas aparências, como acontecia antes do estouro da bolha imobiliária.

Na crise, a contabilidade das injustiças fiscais se torna insuportável.

O debate americano, como quase tudo que lá acontece, acabará rolando aqui, como um filme cuja estreia no Brasil demora um pouco mais.

O sistema tributário nacional é um manicômio para os empresários brasileiros, sendo flagrantemente regressivo contra nosso povão, que paga muito mais do que um rico daqui.

Ninguém sabe direito quanto paga de impostos no supermercado ou na farmácia. E paga, de fato, um coquetel Molotov de seis tributos que se somam e são calculados uns sobre os outros, nas barbas do Supremo Tribunal Federal, que parece não enxergar nada.

Os brasileiros merecem muito mais respeito.

A paciência do povo, tanto aqui como nos EUA, parece ser bovina. Mas a manada pode embravecer, caso as condições de pura sorte, como a que tem mantido em alta nossos termos de troca, voltem a prejudicar os passeios da emergente classe média brasileira à Disney World e às lindas praias do nosso Nordeste.






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