Artigo

O voto e a ética*

Ruy Martins Altenfelder Silva
Presidente do Conselho Diretor do CIEE Nacional, do Conselho de Administração do CIEE e da Academia Paulista de Letras Jurídicas.



* Publicado no jornal Correio Braziliense - 11/01/2012

É  a época da grande pausa nacional para comemorar a virada do ano, com os  tradicionais balanços do passado e a fartura de previsões para o  futuro. A tônica da avaliação de 2011: o Brasil registra saldos  positivos, em especial aqueles decorrentes da estabilidade  político-econômica que está possibilitando a travessia relativamente  tranquila da crise que abala os Estados Unidos e a Europa. Enquanto  brilha nos fóruns e na imprensa internacional como emergente de sucesso,  o país também merece espaço nas páginas dedicadas aos escândalos de  corrupção, envolvendo políticos e funcionários públicos de todos os  escalões que confundem o erário com seus interesses particulares.

Um  olhar mais atento sobre esse cenário negativo, entretanto, remete a um  aspecto que, pelo menos para os menos pessimistas, alimenta a esperança  de que a ética venha, finalmente, conquistar importância na vida da  nação. Trata-se da reação da sociedade aos descalabros que pipocam nas  manchetes. Primeiro, foi a Lei da Ficha Limpa, avanço animador, apesar  de não estar ainda em plena vigência. Segundo, foi o aumento da  vigilância sobre o comportamento dos políticos propiciado pela  disseminação das redes sociais na internet. Mais recentemente, são as  passeatas que já atraem alguns milhares de cidadãos para protestar  contra a corrupção e a impunidade que, há séculos, impera no Brasil.

É  necessário agora, com a proximidade das eleições municipais, prosseguir  com a pressão a favor da ética. O primeiro passo cabe novamente ao  eleitor, que, ao clicar seu voto para prefeito e vereador na urna  eletrônica, estará exercendo o maior direito da cidadania: decidir a  quem vai entregar o poder de administrar o município onde cada um de nós  vive, educa os filhos, mantém o lar e o emprego, desfruta momentos de  lazer. Portanto, ao eleger o prefeito e o vereador para os próximos  quatro anos, cada um de nós deve fazer criteriosa reflexão, pois  estaremos escolhendo em que tipo de cidade queremos viver. Pode ser numa  bem gerenciada, onde o nosso imposto reverterá em benefícios para  todos, graças a investimentos em saneamento básico, transporte,  segurança, saúde, educação e outros serviços. Ou pode ser numa cidade  mal administrada, na qual os recursos públicos serão malbaratados ou  desviados pelos maus políticos para aumentar patrimônios particulares ou  rechear cofres de campanhas partidárias em eleições futuras.

E  não se enganem os legisladores que estabelecem as normas para as  eleições, pois novos tempos já podem estar chegando e a memória dos  cidadãos certamente não é mais tão curta. Seria recomendável que eles se  antecipassem e, com a velocidade do século 21, criassem leis modernas  que - por exemplo - ajudem a coibir abusos, facilitem o alijamento dos  corruptos, proíbam o abandono de cargos eletivos antes do término do  mandato para disputar eleição. É o caso de deputados que deixarão a  Câmara ou a Assembleia Legislativa para se candidatarem a prefeito em  outubro.

A ética também será bom balizador para nortear as  próximas campanhas eleitorais, visando em especial à conquista do apoio  dos multiplicadores de opinião, ou seja, daquelas pessoas que  influenciam um bom contingente de eleitores. Assim, será aconselhável  evitar as promessas exageradas e demagógicas, os compromissos espúrios  para selar apoios (que geralmente são estabelecidos na penumbra, mas  sempre tendem a vir à luz); e por aí vai. Como aprender nunca é demais,  principalmente, nesta era do conhecimento, os candidatos que vierem a  ser eleitos poderiam dedicar algum tempo antes da posse para adquirir ou  reciclar as noções modernas de gestão pública e as informações sobre a  real situação dos municípios que terão a responsabilidade de administrar  nos próximos quatro anos.

Ao equacionar os recursos com que  poderão contar para enfrentar os problemas sociais que afligem  praticamente todos os 5.561 municípios brasileiros, os futuros eleitos  não devem esquecer que o Executivo e o Legislativo municipais podem - e  precisam - participar ativamente das políticas nacionais de assistência  social, em conjunto com os governos federal e estadual, tanto na  execução dos programas quanto na divisão dos recursos para isso  alocados. Como, certamente, tais recursos serão insuficientes diante da  dimensão dos problemas, o administrador público de visão identificará  nas entidades privadas filantrópicas um eficiente manancial de parceiros  e colaboradores dispostos a dedicar o máximo de esforços para  transformar o Brasil no país com que todos sonhamos. E isso, o mais cedo  possível.






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