Artigo

O velho Brasil da rua e da casa*

Roberto Da Matta
*Antropólogo, escritor e professor da PUC-RJ. Autor de vários ensaios sobre sociedades tribais e o Brasil, como Um Mundo Dividido; Carnavais, malandros e heróis; O que faz o Brasil, Brasil; Relativizando: uma introdução à antropologia social, todos editados pela Rocco. Seu último livro, Fé em Deus e pé na tábua, é um ensaio sobre o trânsito no Brasil. DaMatta tem uma coluna semanal nos jornais O Estado de São Paulo, no Globo e Diário de Fortaleza



* Publicado no jornal O Globo - 02/05/2012

O olhar é tudo. De um viés oficial balizado pelo  eurocentrismo e pela experiência americana clássica, o Brasil oficial é  uma balela. Aqui não havia nada: nem lei nem rei. Os mandamentos e as  ordenações elaborados pelos letrados (que Sérgio Buarque de Holanda  chama, no seu clássico "Raízes do Brasil", de "eruditos"), seriam "em  verdade criações engenhosas do espirito, destacadas do mundo e  contrárias a ele". Haveria um autoritarismo da lei como compensação para  a anarquia social reinante. Numa sociedade tida como desordenada, a lei  e o estado ordenariam a confusão.

Eis um despojado resumo de um  conjunto de observações pioneiras sobre as relações entre estado e  sociedade no Brasil. De um lado, um acervo de leis abstratas porque  universais, difíceis de serem cumpridas; do outro, a cumplicidade de  instituições e costumes anárquicos tornam a lei um obstáculo e um  testemunho contundente de que as coisas não funcionam.

Mas se  olharmos esse mesmo Brasil como um sistema de de instituições e costumes  - como um sistema cultural, o que vemos é um todo ordenado  verticalmente, no qual a busca não é para quem está ao nosso lado, mas  para quem está em cima ou em baixo. Dai o discernimento de Tom Jobim -  um músico - o que, nessas coisas, tem um peso considerável, quando ele  afirma como o sucesso - essa categoria social dos países competitivos e  meritocráticos que ordenam horizontalmente o mundo - é uma ofensa  pessoal no Brasil. Vale grifar o pessoal porque o problema foi e ainda é  quem faz ou é acusado de fazer, e não o que foi feito. O jogo é  complexo: quanto mais leis, mais os elos pessoais (hoje poderíamos falar  em laços partidários) se reforçam e as neutralizam, como eu disse em  1979 no livro "Carnavais, malandros e heróis". Um ensaio que pela  primeira vez se afirma, usando Tocqueville, como o Brasil era muito mais  aristocrático do que supunha o nosso vão republicanismo.

Gilberto  Freyre, um outro intérprete modelar, não fala em leis nem no estado.  Para ele, pelo menos no seu livro mais popular, "Casa Grande &  Senzala", o Brasil aparece apenas como um "sistema social total", como  dizia Marcel Mauss. O que movimenta a sociedade brasileira é o  patriarcalismo escravocrata. São os valores familísticos que permeiam o  Brasil.

Trata-se de outra perspectiva. Se olhamos a máquina  administrativa, a sociedade seria anárquica; mas, se o ponto de vista é o  da casa grande e da senzala com seus antagonismos em permanente  equilíbrio, não atinamos com o fato de que a escravidão tem um preço e  que existe toda uma legislação que não apenas legitima a presença do  escravo como um morto-vivo no sistema, mas as regras a serem seguidas no  parentesco, no compadrio e na amizade.

Se você, leitor, está  achando tudo isso muito abstrato, leia com calma os diálogos amorosos e  paternais entre Carlos Cachoeira e Demóstenes, e entre eles e os seus  prepostos, e desses subordinados entre si. Sérgio tem razão na hipótese  da lei contra o costume; mas Freyre também tem razão ao enfatizar o  patriarcado escravocrata contra o mundo da "rua" com suas leis ou  posturas que deveriam valer para todos, exceto para os fidalgos, para os  altos funcionários do governo e para os "homens bons". Nesse Brasil,  ninguém queria ser um "peão". Um mero plebeu ou "cidadão". Sim, porque  esse último escândalo - cujo centro é o laço íntimo (e, sem dúvida,  amoroso) entre empresários, um contraventor, nobres governantes e  ilustres fidalgos, administradores do executivo, do legislativo e do  judiciário - é legal e legítimo em muitas dimensões, mas obviamente está  fora da ordem igualitária. Ele revela como persiste no Brasil a figura  do "cidadão de bem" (réplica moderna do "homem bom") por contraste  cultural com "cidadão comum". Esse merda que somos todos nós.

Como  cidadão você paga sendo sujeito da lei, como amigo dos "caras", porém,  anulam-se em nome da lei (mas não da eficiência ou do mérito) as regras  que governam o Brasil como estado nacional. O caso Cachoeira e quejandos  revela como o Brasil dos palácios (ou casas grandes) tem regras e  éticas. Só que elas não são discutidas em função dos requisitos de uma  governabilidade num universo globalizado e digital onde a transparência é  uma dimensão (queiramos ou não) crítica do poder e do gerenciamento  público em geral.

O que os jornais estampam não é algo fora do  comum. Todos temos uma lealdade absoluta (e comovente) com nossos  amigos, parentes, compadres e subordinados (que, de modo regular, pagam o  pato como os nossos Delúbios e aloprados). Agora, o que os jornais não  falam é a força destes elos que são mais potentes do que os decretos e  normas que gerenciam os serviços e o bem comum - aquilo que é definido  como sendo de todos mas que, eis o óbvio ululante que ninguém vê, é  governado por pessoas que, por serem pessoas, são precisamente os nossos  afins, pais, irmãos e companheiros. Nossos camaradas e amigos de fé.  Esses homens bons, todos maravilhosos em pessoa e todos complicados  quando se trata de distinguir o legal do ético no uso da coisa pública.






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