Artigo

O retorno à semiestagnação*

José Luis Oreiro
é professor do departamento de economia da Universidade de Brasília e pesquisador Nível 1 do CNPq.



* Publicado no jornal Valor Econômico - 27/01/2012

Atualmente vive-se um clima de grande otimismo  com as perspectivas de crescimento da economia brasileira. A crise na  Europa e nos Estados Unidos, somada ao bom desempenho que a economia  brasileira mostrou em 2010, tem levado várias pessoas a pensar que  finalmente o gigante adormecido despertou e que o Brasil se encontra em  vias de alcançar o nível de renda per capita dos países desenvolvidos,  entrando assim para o seleto clube dos países do primeiro mundo. A  realidade, porém, não é tão rósea como parece. Passados os efeitos da  crise de 2008 sobre a economia brasileira, acumulam-se sinais  preocupantes de que nosso país está voltando ao padrão de  "semiestagnação" prevalecente no período 1994-2005.

O grau de  dinamismo de uma economia é determinado pelas perspectivas de expansão  daquele setor de atividade que for mais favorável ao crescimento de  longo prazo. Esse setor é, e continuará sendo por um longo tempo, a  indústria. O setor industrial é o ramo de atividade econômica  responsável pela origem e difusão do progresso tecnológico para a  economia como um todo, fonte de economias estáticas e dinâmicas de  escala e que possui os maiores efeitos de encadeamento para frente e  para trás na cadeia produtiva. Em função dessas características  peculiares do setor industrial, as perspectivas de crescimento da  economia como um todo dependem, em larga medida, da dinâmica da produção  industrial.

No Brasil verificamos uma estreita correlação entre o  crescimento do valor da produção industrial e o crescimento do Produto  Interno Bruto (PIB). Com efeito, no período compreendido entre o  primeiro trimestre de 2004 e o segundo trimestre de 2010, a correlação  entre o crescimento do PIB industrial e o crescimento do PIB foi igual a  0,84.

Quando nos debruçamos sobre os dados da produção física da  indústria, constatamos que no acumulado dos últimos 12 meses, a taxa  mensal de crescimento da produção industrial tem se reduzido  continuamente desde o segundo semestre de 2010. Mais grave ainda, desde  abril de 2011, a taxa de crescimento da produção física da indústria tem  ficado ligeiramente acima de zero, fazendo com que a produção  industrial ainda se encontre 3% abaixo do valor de pico verificado em  outubro de 2008, passados mais de três anos da falência do Lehman  Brothers.

Deve-se observar que a desaceleração e consequente  estagnação da produção industrial se iniciam no segundo semestre de  2010, anteriormente, portanto, ao recrudescimento da crise fiscal na  Europa, a qual data de meados do primeiro semestre de 2011.

A  razão para a perda de dinamismo da produção industrial é de ordem  interna da economia brasileira. Com efeito, a perda de dinamismo da  indústria deve-se aos efeitos retardados da forte apreciação da taxa  real de câmbio verificada no segundo semestre de 2009. A apreciação  cambial tem gerado um forte movimento de substituição de produção  doméstica por importações, fazendo com que a produção física da  indústria brasileira apresente um baixo dinamismo, apesar da expansão  robusta da demanda agregada doméstica.

Esses dados apontam para  uma conclusão bastante preocupante. Se a perda de dinamismo da indústria  brasileira está relacionada com a tendência a apreciação da taxa real  de câmbio, a qual, diga-se de passagem, é uma constante na economia  brasileira ao menos desde 2005; então, mesmo passados os efeitos da  atual crise econômica nos países desenvolvidos, a indústria brasileira  não irá recuperar o seu dinamismo.

Se a perda de dinamismo da  indústria brasileira for de caráter permanente, e ao que tudo indica é,  então podemos antecipar uma redução do potencial de crescimento da  economia brasileira para os próximos anos. Entre o último trimestre de  2008 e o segundo semestre de 2011, o PIB industrial cresceu a uma taxa  anualizada média de 4,05%, a qual é ligeiramente superior ao crescimento  observado no segundo trimestre de 2011, indicando, portanto, um viés  para baixo do crescimento do PIB industrial. Supondo que a correlação  entre o PIB industrial e o PIB total se mantenha constante ao longo do  tempo, um crescimento de 4,05% do PIB industrial aponta para uma  expansão de 3,41% do PIB geral da economia brasileira nos próximos anos.

Entre  2004 e 2010, a economia brasileira cresceu próximo de 5% em função da  existência de capacidade ociosa na indústria, força de trabalho  abundante e relativamente barata, preços das commodities elevados nos  mercados internacionais e grande expansão do crédito doméstico. Essa  conjugação de fatores permitiu uma forte expansão da demanda agregada e,  consequentemente, do nível de produção e de emprego sem a ocorrência de  estrangulamentos pelo lado da oferta agregada ou do balanço de  pagamentos.

Contudo, essas condições excepcionais se esgotaram.  Além disso, a sobre-valorização cambial não só está acelerando o  processo de desindustrialização do país como também está atuando no  sentido de desestimular o aumento do investimento em máquinas e  equipamentos, sem o qual é impossível aumentar o ritmo de expansão da  produtividade do trabalho. Nesse contexto, um crescimento sustentado de  5% desejado pelo governo é apenas um "delírio de grandeza".






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