Artigo

O resgate do Brasil Colônia*

Alfredo Bonduki
engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com pós-graduação pela Fundação Getúlio Vargas, é presidente do Sinditêxtil-SP (Sindicato das Indústrias Têxteis de São Paulo).



* Publicado no jornal Folha de S. Paulo - 24/01/2012

Pequim é a nossa nova Lisboa; um política focada em exportar produtos primários à China leva à dependência e à corrosão da manufatura brasileira

O Brasil se tornou independente de Portugal há 189 anos. Depois de uma história, como nação soberana, permeada por governos de exceção e regimes voláteis, o país, desde a campanha das "Diretas Já" (1984), parece ter consolidado uma firme democracia, que resiste às mais duras provas.

A liberdade política, contudo, parece não ter afastado de modo definitivo o estigma do colonialismo. Estamos trocando a antiga subserviência econômica ao fraterno povo lusitano por uma nova dependência da China.

A exemplo do que fazíamos há mais de dois séculos, quando éramos meros fornecedores de riquezas naturais e de minerais para Lisboa, recebendo em troca poucos bens de valor agregado, estamos exportando para Pequim produtos essenciais e de alta relevância nesta era da sustentabilidade, como petróleo, ferro e soja. Por outro lado, estamos importando um monte de quinquilharias. E pior: estamos pagando por elas preços de produtos de alto valor agregado.

Por conta desse equívoco estratégico em termos de política industrial, a indústria de transformação brasileira fechou 2010 com um deficit superior a US$ 70 bilhões em sua balança comercial. Existe ainda o risco de que esse valor, fechadas as contas de 2011, ultrapasse US$ 90 bilhões.

Apenas a indústria têxtil e de confecções terá saldo negativo de US$ 5 bilhões. Em meio ao potencial de nossa economia em um mundo tomado por graves crises, parece que não estamos percebendo a corrosão de nossa manufatura, com um perigoso avanço da sinodependência.

Graças a uma correta ação de nossa política econômica, temos reservas cambiais superiores a US$ 350 bilhões e uma situação fiscal equacionada. Portanto, não precisamos, como os EUA, que os chineses comprem títulos de nossa dívida.

Assim, não devemos temer qualquer represália à adoção de medidas mais eficazes de proteção comercial. Estamos sofrendo uma concorrência muito desigual no que se refere à qualidade dos produtos, à manipulação cambial, ao respeito às condições sociais e trabalhistas, aos cuidados com o meio ambiente, à utilização de insumos saudáveis e às práticas civilizadas no tocante às leis de mercado.

O governo brasileiro argumenta que a China é o nosso maior parceiro comercial e o principal comprador dos nossos produtos. Por isso, devemos ter muito cuidado para não ferir as suas suscetibilidades, pois isso poderia reduzir as importações chinesas, afetando a nossa balança comercial.

Ora, tal justificativa não é suficiente para fazer com que o Brasil se resigne à dependência, conformado em ser parceiro da África no fornecimento de produtos primários à potência asiática.

O ministro Guido Mantega já afirmou que o Brasil somente seria afetado pela crise se a China reduzisse as suas encomendas, algo que já demonstra a nossa dependência.

A indústria brasileira está fazendo o seu papel, investindo pesadamente em inovação, em modernização e na ampliação da sua capacidade. A indústria têxtil sozinha investiu US$ 2 bilhões em 2010. Temos um parque industrial moderno e pujante, que garante uma pauta diversificada de exportações.

Mesmo que o país se imponha mais no comércio bilateral, os chineses continuarão precisando -e muito- de nossas commodities, dos nossos alimentos e do nosso aço, além de outros produtos.

É necessário, também, aproveitar e valorizar a força do ascendente mercado interno nacional. Há algum sentido estratégico em aumentar a exportação de fibras de algodão e, ao mesmo tempo, ampliar o volume de roupas importadas? Não temos nenhuma razão para reinstituir o Brasil Colônia.






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