Artigo

O pré-sal verde*

Erasmo Battistella
Presidente da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil.



* Publicado no jornal Correio Braziliense - 23/01/2012

O  mundo acompanhou no final de 2011 a COP-17, a conferência sobre clima  organizada pelas Nações Unidas em Durban. Não faltou quem comemorasse o  resultado alvissareiro que lançou as bases para um futuro acordo de  controle das emissões de gases poluentes envolvendo todas as nações. Mas  infelizmente o resultado da conferência, a exemplo da de Kyoto em 1995,  pode não passar de apenas alvissareiro. Afinal, até 2020 nada se fará  pelo combate ao aquecimento global, quando então deverá entrar em vigor  "um protocolo com força legal" para tanto, como diz o texto da  conferência na África do Sul.

Há muito tempo a questão ambiental  deixou de ser problema do futuro, pois é no presente que ele se mostra  inevitável, com o pouco que fazemos para sua solução. O Brasil, contudo,  tem trabalhado para isso. Entre várias linhas de ação, se destaca o  Plano Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), que desde 2004  prevê a mistura de 5% de biodiesel no diesel mineral comercializado no  país.

De lá para cá, uma indústria jovem, dinâmica e inovadora se  formou em torno desse importante ativo na matriz energética do futuro.  Cerca de R$ 4 bilhões foram investidos em pesquisa e desenvolvimento, em  um parque fabril composto por mais de 60 usinas espalhadas por todo o  país, que geram 1,3 milhão de empregos.

O cenário é o de  verdadeiro pré-sal verde, em que cada usina é como uma plataforma  cercada por um mar de soja e outras culturas agrícolas, a custo muito  menor do que na camada do pré-sal fóssil e com ganhos de  sustentabilidade incomparáveis. Sem falar nos riscos de acidentes que a  exploração do óleo cru implica, como os no Campo de Frade, no litoral  norte do Rio de Janeiro, exatamente quando ocorria a conferência da ONU.

Nos  últimos cinco anos, o setor mobilizou a participação de 103 mil  famílias de pequenos agricultores como fornecedores de matérias-primas.  Mas o que quase ninguém que se reuniu em Durban sabe é que o caminho  pela frente só tende a melhorar se forem dados os passos certos. O  Brasil produz hoje de 2,6 a 2,8 bilhões de litros de biodiesel e consome  uns 200 milhões de litros a mais. Esse desempenho faz de nós o terceiro  produtor mundial e o líder em consumo, com a retração do mercado  interno alemão em função da crise na Europa.

Portanto, se já  investimos R$ 4 bilhões para misturar 5% de biodiesel no diesel vendido  no país, para chegarmos a 20% da mistura, como pretendido em 2020,  investiremos quase R$ 30 bilhões. Na geração de empregos, chegaremos a  4,7 milhões de postos de trabalho. E no envolvimento das famílias  agricultoras, serão 531 mil. Entretanto, o país não tem ainda leis que  assegurem a gradativa introdução do combustível na matriz energética,  tanto do Brasil quanto do mercado externo, pois hoje não exportamos uma  gota de biodiesel, perdendo competitividade e deixando de contribuir  para o saldo da balança comercial. O setor tem contribuído, ao menos,  para reduzir o deficit suprindo parte das importações de diesel.

Em  termos de benefícios ao meio ambiente, à saúde humana e às políticas de  saúde pública, os benefícios da adoção do biodiesel são comprovados  cientificamente por estudo da Fundação Getulio Vargas. O combustível  emite 57% menos gases poluentes que o diesel fóssil. Com 10% de mistura,  a emissão de gás carbônico se reduzirá em 8%. Com 20% misturados ao  diesel normal, cairá em 12%. Com 5% misturados no diesel que move ônibus  e caminhões em nossas estradas e cidades, o biodiesel contribui para  reduzir em 12.945 o número de internações hospitalares por problemas  respiratórios. Com 10% misturados, a redução pode chegar a 34.520. E a  20% de mistura, 77.672 internações a menos.

Na mesma trajetória de  aumento de mistura, hoje, com 5% de biodiesel no diesel, 1.838 vidas  são poupadas. Com 10%, o número pode chegar a 4.902. E, quando  estivermos com 20%, o Brasil estará salvando 11.029 vidas. Mas, enquanto  na Europa e na América Latina (Argentina e Colômbia) a previsão é de  chegar a 2020 com 20% de mistura de combustível limpo no diesel, a falta  de previsão legal no Brasil, apesar do PNPB e de todo o comprometimento  institucional, leva a tomar corpo no setor produtivo a proposta de  graduação anual de 1,5% da mistura, para que os benefícios sejam  permanentes e para todos.






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