Artigo

O descaminho das commodities*

Ozires Silva
é engenheiro. Foi ministro de Estado da Infraestrutura e presidente da Embraer, Petrobras e Varig.



* Publicado no jornal Brasil Econômico - 23/01/2012                         

O artigo "O local-contentismo" (publicado na edição de 17/1/2012), de Marcos Troyjo, toca num ponto vital: a política industrial. Sobretudo neste início do século 21, que, como se esperava, está sendo muito diferente do passado, com novos problemas na busca de novas soluções. Alguns países acharam alguns caminhos e nada indica que serão permanentes. As variáveis que teremos de enfrentar, algumas são visíveis. Por exemplo, o sucesso mercadológico dos produtos de alto valor agregado, carregados e produzidos com componentes e equipamentos, os quais têm origem nos mais variados países do globo, todos procurados por preço/qualidade. Esses produtos finais carregarão o sucesso, mais e mais, e serão produzidos por grandes grupos empresariais, possivelmente com subsidiárias em diferentes locais ou países, carregando marcas fortes de penetração global. Esses produtos complexos e sofisticados, no último estágio da produção, serão comercializados por esses grandes grupos e ganharão bem mais na comercialização do que na produção do que qualquer fabricante original.

Neste cenário, parece-me claro que nenhum país, vendedor de commodities (nosso caso) terá sucesso. Conheço bem o caso dos nossos aviões, produzidos pela Embraer, e, pessoalmente, busquei chegar a esse modelo desde os tempos nos quais presidia a empresa. Lembro-me de que, na década dos 1960, a França se vangloriava de fabricar o Mirage III, caça supersônico produzido pela Marcel Dassault, como um produto "100% francês". Isso não existe mais. Os Airbus finalmente montados na França hoje nada têm e estão longe do "100% francês".

Assim, está claro que a competição é entre países e não mais entre empresas, por maiores que sejam. Se o país não produzir um ambiente competitivo, as empresas sozinhas nada conseguirão. É mais ou menos o que está claro na vida de Steve Jobs. Se ele não estivesse no Silicon Valley, não teria conseguido o que o consagra hoje. Isto é, ele estava no ambiente adequado. E, agora, olhando para o nosso Brasil, vemos que a produção nacional não está no ambiente adequado. O governo está longe do setor produtivo. Num outro dia surpreendi-me na Fiesp vendo representantes de um importante grupo produtivo setorial reunidos para interpretar uma lei recentemente editada. Perguntei se eles tinham participado da elaboração da lei. Negativo! Neste quadro, pode ser demonstrado o que nos leva à baixa competitividade dos produtos brasileiros. Soube que a Alcoa está querendo abandonar a produção de alumínio no Brasil devido ao custo da energia elétrica que carrega quase 50% de tributos. O alumínio, como se diz, é energia sólida! A Renner, no Rio Grande do Sul, a mais tradicional produtora nacional de tecidos, parou toda a produção e vive agora da comercialização de tecidos chineses.

Em resumo, e se quisermos exemplos, verifique-se a China e a Coreia do Sul sob o aspecto da estreita e direta cooperação dos governos com a produção.

Se examinarmos a pauta de importações de componentes e equipamentos para a produção nacional, veremos claramente que os insumos industriais do país reduzem as margens comerciais dos produtos finais. Assim, muitas das nossas empresas locais estão partindo para substituir componentes nacionais por importados, afastando-se do local-contentismo. Estou errado?

Assim, muitas das nossas empresas locais estão partindo para substituir componentes nacionais por importados, afastando-se do local-contentismo.






(c) 2009-2013. Transparência Capixaba - Todos os direitos reservados. Porto - Internet de Resultados.
Porto - Internet de Resultados