Artigo

O carnaval e o varredor de rua

Antonio Marcus Machado
Economista e professor universitário



De acordo com os principais antropólogos e estudiosos do Brasil o carnaval sempre foi uma liberação das ironias finas, do desejo de personificar outro alguém, de mascarar-se para revelar outras fantasias pessoais e de cantar versos em ritmos contagiantes. Muitos vestiam-se de Cesar ou de Nero, de pirata, de presidiário, de marinheiro, de bruxa, de fada madrinha, de odalisca e tantas outras mensagens estéticas. Subir na vida, assumir posições mais influentes era apenas uma questão de escolher a fantasia certa. O carteiro poderia virar general; o coveiro, bispo; o balconista, empresário rico e assim por diante. A inversão de importância ocorria também. Rico vestia-se de pobre ou capitão vestia-se de soldado raso. Quando mascarados assumiam uma nova faceta de sua personalidade e desafiavam as pessoas as descobrir quem verdadeiramente eram.

Os ricos ou de melhor condição financeira iam aos clubes, mas o andar de baixo, a plebe em si, desfilava pelas ruas e becos das cidades. Alguns observam que o ato de desfilar  pelas ruas seria uma contraposição as procissões que a igreja protagonizava em suas festividades e datas especiais. O Santo e o profano. Desfilavam aos olhos públicos assim como os donos do poder, desde César e suas legiões romanas. O carnaval, em sua essência, era uma festa vadia, irreverente, irônica e sarcástica. Não havia, no carnaval de rua, necessariamente um só ritmo, uma só musica. Cada um cantava sua própria música ou puxava um refrão mais conhecido. Na verdade, tudo era uma marcha. Igreja, militares e o povo, que naquele dia podia ser o que quisesse. Por isso, as músicas chamavam-se "marchinhas". E por sinal Victor Humberto e Márcia Chagas cantarão algumas delas, do tempo de nossos pais, no Wunderbar Kaffe nesse sábado.

Com o tempo, esses nossos tempos,  tudo mudou muito. O carnaval de rua diminui e quase sumiu. As escolas de samba - ainda que a música ensine que ninguém aprende samba no colégio, por ser ele um privilégio - vendem abadás caros, centenas de pessoas andam pela avenida vestindo fantasias iguais em uma mesma ala, lutam contra o relógio e esperam uma premiação. As músicas são encomendadas para destacar alguém ou algo, o tal do enredo. Desfez-se o romance ou a irreverencia musical.  Diz a mídia que a Jennifer Lopez aprendeu a sambar em 30 minutos e que já sabe o que é o carnaval brasileiro. Mas, na verdade, só o varredor de rua, aquele que faz de sua vassoura o estandarte de sua imaginação, sabe o que é o carnaval.






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