Artigo

Movimento "Ocupe" é inédito em termos de escala e caráter*

Noam Chomsky
línguista, filósofo e ativista político estadunidense.



* Publicado no jornal The New York Times - 08/01/2012

Dar uma palestra sobre Howard Zinn é uma experiência agridoce para mim. Lamento que ele não esteja aqui para revigorar e fazer parte de um  movimento que foi o sonho da vida dele. Ele certamente criou boa parte  da base disso.

Se as ligações e associações que estão sendo estabelecidas nesses  acontecimentos notáveis puderem ser mantidas pelo longo e difícil  período que vem pela frente - vitórias não chegam rapidamente - os  protestos do Occupy poderão marcar um momento significativo na História  americana.

Nunca vi nada como o movimento Occupy, em termos de escala e de  caráter, tanto aqui como no resto do mundo. Os postos avançados do  movimento estão tentando criar comunidades cooperativas que talvez  possam ser exatamente a base para organizações duradouras necessárias  para superar as barreiras futuras e a reação que já está acontecendo.

Parece apropriado o fato de o Occupy ser um movimento sem precedentes,  uma vez que esta é uma era sem precedentes, não só neste momento, mas  desde os anos 1970.

Os anos 1970 marcaram um ponto de virada para os Estados Unidos. Desde  sua origem, este país tem visto sua sociedade se desenvolver, nem sempre  da melhor forma, mas com um avanço geral na direção da industrialização  e da riqueza.

Mesmo em tempos sombrios, a expectativa era de que o progresso  continuaria. Só tenho idade para me lembrar da Grande Depressão. Em  meados dos anos 1930, embora a situação objetivamente estivesse muito  mais difícil do que hoje, o espírito era bem diferente.

Um movimento militante operário estava se organizando - o CIO  (Congresso de Organizações Industriais) e outros - e trabalhadores  estavam fazendo paralisações, só a um passo de assumirem as fábricas,  gerenciando-as eles mesmos.

Sob pressão popular, a legislação do New Deal foi aprovada. A sensação geral era de que os tempos difíceis ficariam para trás.

Agora existe um sentimento de desesperança, às vezes de desespero. Isso  é bastante novo em nossa História. Nos anos 1930, a classe trabalhadora  conseguia prever que os empregos voltariam. Hoje, se você trabalha na  indústria, com o desemprego praticamente nos níveis da época da  Depressão, você sabe que esses empregos podem sumir para sempre caso as  políticas atuais persistam.

Essa mudança na perspectiva americana mudou a partir dos anos 1970.  Numa inversão, vários séculos de industrialização se voltaram para a  desindustrialização. É claro que a indústria continuou, mas em outros  países - muito lucrativo, embora prejudicial à força de trabalho.

A economia mudou o foco para as finanças. Instituições financeiras se  expandiram enormemente. Um círculo vicioso entre finanças e políticas se  acelerou. Cada vez mais, a riqueza foi se concentrando no setor  financeiro. Os políticos, diante do custo crescente das campanhas, foram  levados a buscar cada vez mais fundo nos bolsos de financiadores ricos.

E os políticos os recompensaram com políticas favoráveis a Wall Street:  desregulação, mudanças tributárias, relaxamento de regras de governança  corporativa, que intensificaram o círculo vicioso. O colapso era  inevitável. Em 2008, o governo mais uma vez veio em socorro das empresas  de Wall Street que supostamente eram grandes demais para falir, com  dirigentes grandes demais para serem presos.

Hoje, para um décimo do 1% da população que mais lucrou com essas décadas de ganância e enganação, tudo está bem.

Em 2005, o Citigroup - que, aliás, foi resgatado repetidas vezes pelo  governo - viu os ricos como uma oportunidade para crescer. O banco  distribuiu um folheto para investidores que os incentivava a colocarem  seu dinheiro em algo chamado Índice de Plutonomia, que identificava as  ações das empresas que atendem ao mercado de luxo.

"O mundo está se dividindo em dois blocos: a plutonomia e o resto",  resumiu o Citigroup. "Os Estados Unidos, o Reino Unido e o Canadá são as  principais plutonomias: economias impulsionadas pelo luxo".

Quanto aos não-ricos, às vezes eles são chamados de precariado: o  proletariado que  vive uma existência precária na periferia da  sociedade. A "periferia", no entanto, se tornou uma proporção  significativa da população nos Estados Unidos e outros países.

Então temos a plutonomia e o precariado: o 1% e os 99%, como vê o Occupy. Não são números exatos, mas é a imagem certa.

A mudança histórica na confiança do povo sobre o futuro é um reflexo de  tendências que poderiam se tornar irreversíveis. Os protestos do Occupy  são a primeira grande reação popular que poderiam mudar a dinâmica das  coisas.

Ative-me a questões internas. Mas há dois acontecimentos perigosos no cenário internacional que ofuscam todo o resto.

Pela primeira vez na História da humanidade, existem ameaças reais à  sobrevivência da espécie humana. Desde 1945 temos armas nucleares, e  parece um milagre que tenhamos sobrevivido a elas. Mas as políticas da  administração Obama e seus aliados estão encorajando a escalada.

A outra ameaça, claro, é a catástrofe ambiental. Praticamente todos os  países do mundo estão tomando pelo menos medidas hesitantes para fazer  algo a respeito. Os Estados Unidos estão dando passos para trás. Um  sistema de propaganda abertamente reconhecido pela comunidade  empresarial declara que a mudança climática não passa de um embuste dos  liberais: por que dar atenção a esses cientistas?

Se essa intransigência continuar no país mais rico e poderoso do mundo, a catástrofe não poderá ser evitada.

Algo precisa ser feito de uma forma disciplinada e contínua, e rápido.  Não será fácil. Haverá dificuldades e fracassos, é inevitável. Mas a  menos que o processo que está ocorrendo aqui e em outras partes do país e  no resto do mundo continue a crescer e se torne uma grande força na  sociedade e na política, as chances de termos um futuro decente são  ínfimas.

Não se conseguem iniciativas significativas sem uma base popular ampla e  ativa. É necessário sair por todo o país e ajudar as pessoas a  entenderem do que se trata o movimento Occupy - o que elas mesmas podem  fazer, e quais são as consequências de não se fazer nada.

Organizar uma base como essa envolve educação e ativismo. Educação não  significa dizer às pessoas no que elas devem acreditar - significa  aprender com elas.

Karl Marx disse, "A tarefa não é somente entender o mundo, e sim  mudá-lo". Uma variante que se pode ter em mente é que se você quer mudar  o mundo, é melhor tentar entendê-lo. Isso não significa assistir a uma  palestra ou ler um livro, embora isso às vezes ajude. Você aprende ao  participar. Você aprende com os outros. Você aprende com as pessoas que  você está tentando organizar. Todos temos de adquirir compreensão e  experiência antes de formular e implementar ideias.

O aspecto mais interessante do movimento Occupy é a construção dos  vínculos que estão ocorrendo em todo lugar. Se eles puderem se manter e  se expandir, o Occupy pode levar a esforços destinados a colocar a  sociedade em uma rota mais humana.


Tradução: Lana Lim






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