Artigo

Ler a cidade*

Affonso Romano de Santana
é escritor.



* Publicado no jornal Estado de Minas - 22/01/2012

O Instituto de Arquitetos do Brasil, seção Rio, resolveu fazer uma série de debates para entender melhor as transformações por que passa o estado. Para o sexto painel mediado por Sidney Rezende, estive ao lado do artista Vik Muniz e da historiadora Maria Alice Carvalho. Atualmente 40 escritórios de arquitetura do país estão fazendo projetos para acabar de vez com a ideia de "favelas" e incorporar as "comunidades" à vida normal da cidade. É um modelo que pode interessar a outras cidades brasileiras.

Não sou arquiteto nem urbanista. Sou um poeta pasmo diante dos enigmas. Por isso achei curioso e desafiante que me convidassem para essa discussão. Mesmo porque Platão, quando imaginou a República ideal, expulsou dela os poetas, pois para aquele filósofo eles não produziam nada de prático e ainda tumultuavam a cabeça das pessoas com suas metáforas.

Ler a cidade. Levei isto como tema, seja porque publiquei recentemente o livro Ler o mundo, seja porque vivemos uma situação curiosa. Volta e meia se fala da "selva das cidades" - uma imagem forte e verdadeira. Ou seja, somos índios que não deciframos a nossa selva, enquanto o índio autêntico sabe perfeitamente andar e viver na sua selva. O desafio, portanto, é domesticar a selva urbana.

E dizia que o Rio está vivendo uma experiência histórica: a incorporação de 600 territórios antes ilhados, ocultos e malsinados à cidade. A próxima Olimpíada, a Copa do Mundo e uma administração mais eficiente propiciaram "ler" a questão das favelas de modo diferente. Tudo é "leitura". Toda mudança de conhecimento vem de um novo modo de 'ler' o real. E nesta cidade todo mundo está aprendendo a "ler" a vida. Os policiais, os traficantes, os turistas, o cidadão comum, todos estão "relendo" as favelas e a cidade de outro modo.

Moro neste prédio, ao lado de uma favela, em Ipanema, há 40 anos. Já vi de tudo. Tiroteios noite e dia, cadáveres envoltos em lençol e até estive ao lado da princesa Anne, da Inglaterra, quando ela subiu esse morro para ver coisas que ela só lia em livros. Quando vinham visitas à minha casa, temia que chegassem ao terraço e levassem uma bala perdida. Meu apartamento estava desvalorizado em dois terços do valor. Agora, nem eu o poderia comprar.

Hoje mostro com orgulho as duas torres de 15 andares, o elevador que leva os ex-favelados às suas casas. Os tiroteios acabaram. A boca da favela deixou de ser aquela cena que Aluísio Azevedo havia descrito em O cortiço no século 19.

É o ideal? Não. Há problemas graves por todo lado. Mas algo fundamental ocorreu. Em vez de incursões policiais punitivas, no lugar de inaugurar uma bica ou uma escolar, passou-se para uma ação sistêmica, integrada. Passou-se a incorporar um "território" antes ao deus-dará.

Então, penso. O projeto de incorporação dessas 600 favelas se dá no momento em que 30 milhões de pessoas no país entram na sociedade de consumo. É a emergência da classe C. Essa classe está aprendendo a "ler" o mundo, está tendo acesso a outros códigos. Está recebendo benefícios, mas aprendendo que tem que parar de fazer "gatos" na rede elétrica e começar a pagar impostos. Os criminosos estão sendo obrigados a sair da barbárie. Eles sempre existirão. Mas deixarão de ostentar fuzis AR-15 ou de erguer cabeças de inimigos cortadas em cima de caixas-d"água.

Quando há uns 50 anos removeram as favelas da Zona Sul do Rio para a Cidade de Deus, os administradores se surpreenderam ao ver que os favelados continuaram a criar galinhas e cabritos em seus novos apartamentos, alguns até fizeram horta nos banheiros. Foram transplantados apenas. Faltava uma ação sistêmica, outra leitura do mundo.

Se o Brasil quer ingressar no chamado Primeiro Mundo, que aprenda a ler, a interpretar seu papel interna e externamente. Parece que há uma semelhança entre a incorporação dessas 600 favelas à cidadania e a passagem do Brasil para o rol dos países de ponta. Estamos todos em transformação: o Brasil está deixando de ser um país marginal. E isso exige nova leitura.






(c) 2009-2013. Transparência Capixaba - Todos os direitos reservados. Porto - Internet de Resultados.
Porto - Internet de Resultados