Artigo

Desastres no trânsito*

David Duarte Lima
Doutor em segurança de trânsito, é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília e presidente do Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito (IST).



* Publicado no jornal Correio Braziliense - 13/01/2012

"O mais escandaloso do escândalo é que nos acostumamos a ele." (Simone Beauvoir)

Preocupado  com índices econômicos, superavit primário, taxas de juros e metas de  inflação, que garantem nossa ascensão à sexta economia do mundo, o  governo parece não se dar conta da tragédia que impera nas ruas. Como só  viaja de avião, a burocracia estatal é incapaz de compreender a  tragédia das estradas, pontilhadas por cruzes, e se restringe a  apresentar a contabilidade fúnebre após as festas de fim de ano,  carnaval e feriados prolongados, como se isso ajudasse ou confortasse as  famílias das vítimas.

O governo atribui a ocorrência dos  desastres apenas à irresponsabilidade dos motoristas e se limita a  aumentar o infortúnio no inventário nefasto. Convenientemente  desconsidera sua responsabilidade na habilitação de motoristas, no  estado precário das estradas e na fiscalização do trânsito. Submetido à  barganha política de quinta categoria, o órgão nacional de trânsito, o  Denatran, tem na inépcia sua expressão máxima.

O corolário do  descaso não poderia ser outro: em 2010 batemos o recorde de mortes no  trânsito e em 2011 superaremos essa marca sem dificuldade. Acreditando  na metamorfose da tragédia em estatística, governo e sociedade parecem  se unir em torno do lema do ditador soviético Joseph Stálin que "a morte  de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística". Essa  parece ser a única explicação plausível para não nos darmos conta de que  nos últimos 30 anos 1 milhão de pessoas morreram no nosso trânsito e 20  milhões ficaram feridas. Nesse período, 5 milhões de brasileiros foram  para cadeiras de rodas ou ficaram com lesões irreversíveis.

Por  incrível que possa parecer, o custo de R$ 1 trilhão dos desastres de  trânsito não está contabilizado nos índices econômicos. Países  desenvolvidos tratam o trânsito com seriedade. Em 1966, o presidente  Lyndon

Johnson foi alertado sobre a mortandade no trânsito do seu  país. "Mais de 1,5 milhão de nossos cidadãos morreram em nossas ruas e  estradas neste século; cerca de três vezes o número de americanos que  perdemos em todas as nossas guerras", disse ao assinar o "Plano de  Segurança no Trânsito". Em 2010, os Estados Unidos tiveram o menor  número de mortos no trânsito desde 1949.

A Bélgica, outro exemplo,  multiplicou por 10 a frota de veículos automotores nos últimos 60 anos,  mas em 2010 teve o menor número de vítimas de trânsito de sua história.  Esses países fazem diagnósticos dos problemas, realizam pesquisas em  profundidade, estabelecem metas e promovem ações para reduzir a  violência no trânsito. Os programas desses governos são robustos, há  comprometimento das autoridades e efetiva participação da sociedade.

No  Brasil, temos um longo caminho a percorrer. Em muitos aspectos parece  que estamos na idade da pedra. Nossas estatísticas de trânsito deixam  muito a desejar. Relegadas a plano secundário, as perícias, essenciais  para estabelecer medidas preventivas, são feitas à matroca. Sem perícias  criteriosas, as demandas judiciais dos desastres de trânsito não  prosperam. A Justiça, de outra parte, tem mostrado excessiva  benevolência com os motoristas infratores, promovendo a terrível  impunidade, que anda de mãos dadas com a irresponsabilidade e o risco.

Construídas  com tecnologia dos anos 1950, nossas estradas são perigosas,  incompatíveis com os tempos atuais. Quando se modernizam para os carros,  nossas cidades espremem pedestres e ciclistas entre o muro e a morte.  Milhões são gastos em viadutos enquanto passagens para pedestres,  calçadas e ciclovias enfrentam a intransponível má vontade burocrática.  Mal equipados e sem treinamento, os agentes de trânsito não conseguem  conferir à fiscalização eficiência mínima. Para completar a patogenia,  boa parte dos nossos veículos circulam sem manutenção, à espera de mais  vítimas.

É preciso dar um basta! Todos os dias milhares de  brasileiros são feridos ou têm a vida precocemente interrompida por  desastres de trânsito. Não podemos mais esperar. Medidas como uso do  cinto de segurança, controle de velocidade em áreas urbanas,  aperfeiçoamento da fiscalização, inspeção de segurança dos veículos,  educação de trânsito para pedestres e ciclistas, que demandam poucos  recursos e têm grande impacto na redução do número de vítimas, podem ser  o começo da virada.

Temos que encarar a empreitada. Chega de  contar mortos e transformá-los em estatísticas para tentar esmaecer a  face cruel do trânsito. Os belos índices econômicos não conseguem  camuflar a procissão de cadáveres e mutilados nas ruas, ou estancar o  choro das famílias enlutadas. Chega de inação, de indiferença, de  insensibilidade. Basta!






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