Artigo

Crescimento medíocre?*

Paulo Nogueira Batista Jr.
economista e diretor executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional, mas expressa os seus pontos de vista em caráter pessoal.



* Publicado no jornal O Globo - 21/01/2012

Em 2011, a economia brasileira registrou  crescimento medíocre. O PIB cresceu um pouco menos do que 3%; o setor  industrial estagnou. Foi um desempenho bem abaixo do esperado, que não  faz jus ao renome de economia emergente dinâmica, de estrela em ascensão  na economia mundial. Para 2012, as projeções continuam indicando  crescimento medíocre. Isso pode mudar, mas no momento a expectativa dos  analistas de mercado é de uma expansão do PIB da ordem de 3% ou um pouco  mais.

Nesse ritmo, o Brasil cresce menos do que a média mundial.  Foi o que aconteceu no ano passado; é o que pode acontecer este ano  outra vez. Dos Brics, o Brasil foi o que teve a menor taxa de expansão  em 2011 - um pouco inferior à da África do Sul.

O que explica esse  desempenho decepcionante? O cenário mundial adverso atrapalhou,  sobretudo no segundo semestre. Mas a explicação primordial é interna:  desde o fim de 2010, o governo brasileiro adotou diversas medidas de  contenção no campo das contas públicas, da moeda e do crédito. A  austeridade fiscal, combinada com aperto monetário e creditício,  derrubou o ritmo de expansão da demanda doméstica e da atividade  econômica. Além disso, a sobrevalorização cambial prejudicou gravemente a  indústria e outros setores expostos à competição internacional.

Foi  demais? Em retrospecto, parece que sim. Até aqui no FMI economistas já  se perguntam se o aperto não teria sido excessivo no Brasil.

Evidentemente,  é a fácil sabedoria "ex post". No momento em que as decisões foram  tomadas reinava, como sempre, a incerteza. Como dizia Keynes, "the  expected never happens; it is the unexpected, always" (o esperado nunca  acontece; é o inesperado, sempre).

Ex ante, no início de 2011, o  quadro econômico e as percepções eram completamente diferentes. A  economia brasileira estava aquecida demais e todos se preocupavam com o  risco de que uma expansão excessivamente rápida da demanda gerasse  desequilíbrios internos e externos que se tornariam, com o passar do  tempo, muito difíceis de administrar. Era recomendável aproveitar o  capital político de início de mandato para dar uma "freada de  arrumação".

Tampouco se poderia imaginar que a crise da área do  euro fosse se agravar tão dramaticamente a partir de meados de 2011. A  turbulência externa veio se somar ao ajuste interno para instalar um  quadro de crescimento medíocre.

Agora o governo está correndo  atrás do prejuízo. A Fazenda adotou incentivos fiscais seletivos; o  Banco Central afrouxou os controles sobre o crédito e reduziu a taxa  básica de juros em dois pontos percentuais desde agosto.

É  possível reverter o quadro? Creio que sim. O governo não usou nem metade  da munição de que dispõe. O Banco Central pode, por exemplo, reduzir os  compulsórios sobre passivos bancários ou adotar outras medidas de  estímulo ao crédito. As taxas de juros continuam muito altas e podem ser  gradualmente reduzidas.

Apesar da redução dos últimos meses, os  juros básicos ainda são elevados para padrões internacionais. A taxa  básica real ex ante, isto é, a taxa nominal ajustada pela inflação  esperada, ainda está em quase 5% no Brasil. Levantamento da corretora  Cruzeiro do Sul, que abrange os 39 principais países avançados e em  desenvolvimento, além de Hong Kong, indica que a média dos juros básicos  reais é negativa em 0,9%. Só 13 países praticam juros básicos positivos  em termos reais e destes apenas três (Hungria, China e Indonésia) têm  taxas entre 2 e 3%.

Como a dívida pública é relativamente elevada  no Brasil, o espaço para uma política fiscal anticíclica é menor. Mas há  espaço para reduzir os juros, sem dúvida. Juros mais baixos, além de  estimular a demanda interna, favorecem o equilíbrio das contas públicas e  uma taxa de câmbio mais depreciada.

O caminho mais promissor  parece ser o de combinar diminuição gradual dos juros e dos controles de  crédito com preservação da disciplina fiscal. É por essa via que o  Brasil deve procurar reativar a economia, sobretudo se o quadro mundial  continuar se agravando.






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