Artigo

Corpo e alma*

Roberto Da Matta
*Antropólogo, escritor e professor da PUC-RJ. Autor de vários ensaios sobre sociedades tribais e o Brasil, como Um Mundo Dividido; Carnavais, malandros e heróis; O que faz o Brasil, Brasil; Relativizando: uma introdução à antropologia social, todos editados pela Rocco. Seu último livro, Fé em Deus e pé na tábua, é um ensaio sobre o trânsito no Brasil. DaMatta tem uma coluna semanal nos jornais O Estado de São Paulo, no Globo e Diário de Fortaleza



* Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 18 de janeiro de 2012

Ao tentar fazer minha memória falar, seguindo o exemplo de Vladimir Nabokov do Speak, Memory - uma das mais belas narrativas que li em minha vida -, ouço o seguinte:

- Robertinho é canhoto!

Foi como canhoto que eu comecei a atuar no mundo. E o meu problema era saber a natureza daquele qualificativo. Logo descobri que ser canhoto era ser errado. Nada perturba tanto quanto ser diferente e, na maioria dos casos, ser diferente para menos. O ser diferente e o ser igual é o problema. Pois todos somos feitos de semelhanças e diferenças e sabemos que crescer é aprender esse complicado diálogo entre o que nos iguala e o que nos diferencia. Ficou uma lembrança: eu era tão radicalmente canhoto que podia escrever como o grande Leonardo da Vinci, da esquerda para a direita. Quem me guiava no mundo, arrumando-o e construindo-o, o meu lado e a minha mão esquerda. Confirmei que ser canhoto era ser errado porque a professora me obrigava a escrever com a mão direita. Essa direita dos politicamente corretos e "bem resolvidos", que foi a minha primeira inimiga neste mundo.

Foi essa polaridade entre as mãos, cujo intenso simbolismo estudei depois num texto clássico de Robert Hertz, quem primeiro sinalizou como o corpo falava mais alto do que alma e com ela lutava.

As oposições são simplificadoras. Não resolvem, mas - como dizia Lévi-Strauss - são saborosas para pensar. Sem elas, não há orientação, conforme descobri ainda menino quando ia pegar alguma coisa e um olho interno me via e dizia que eu estava usando a mão torta. A mão do coração e não a da cabeça.

Faz, pois, parte do meu aprendizado que o corpo e alma batalham. Muitos amigos não viveram tal luta. Os que eu mais invejava eram os que aparentemente só tinham alma e - é claro - escreviam com a mão direita.

Homem feito, aprendi que o corpo era mais confiável do que a alma. Tal como a minha mão esquerda é, até hoje, muito mais garantida do que todo o meu lado direito. Como esses nossos políticos especializados em enchentes, sou muito mais confiável pelo lado esquerdo ou errado do que pelo meu lado direito e correto.

A prática esportiva e uma tentativa de construir uma estante, bem como tantas outras coisas, me mostraram como o corpo não permite o abuso ou o erro. Que falem os meus eventuais excessos com o mero e mortal álcool; que o digam os meus planos de estudar a noite toda; que testemunhem os meus pigarros carregados de nicotina quando eu abusava do fumo. E que confirme tudo isso as vezes em que, durante um exercício físico, minha alma coloca diante do meu corpo algum objetivo mais ambicioso. A alma cobiça, mas o corpo não acompanha. Não porque não queira, mas porque não pode. Afinal, o corpo parece fácil: ele tem um assento físico, concreto, visível e verdadeiro; ao passo que a alma é abstrata, intangível, fugaz e ganha concretude mais quando recusa ou ilude do que quando acompanha o corpo.

Era um corpo velho e sua alma tinha sido dilacerada por mil e uma memórias e experiências - por muitos sofrimentos advindos da inveja, da generosidade, da compaixão, do ressentimento, do esforço e da comiseração. Mas - Deus do céu! - era um corpo impávido na sua beleza e no seu orgulho de estar vivo. Um corpo que nos abria para o amor e nos tornava orgulhosos de pertencer àquela casa. Havia uma alma habitando aquele corpo, sem dúvida. Seu fulgor iluminava-o, dando-lhe um equilíbrio conquistado. Ali não havia ódio nem ressentimento. Corpo e alma estavam em paz, mas - eis a surpresa - estavam vivos.

Eu sentei ao lado dela, que havia se transformado numa figura de campo de concentração e extermínio, tal a sua fragilidade física e mental. Mas o rosto... Ah! O rosto, embora pálido, guardava a face da mulher amada. Da jovem cujo sorriso abriu o caminho para a felicidade neste mundo. E, quem sabe, no outro, conforme logo descobrimos com os nossos experimentos corporais. Porque é o corpo que permite a peregrinação da alma. A alma é difícil de encontrar. Quantas pessoas sem alma você já encontrou na sua vida? O Diabo (aquele Canhoto) leva as almas. Antigamente ele as comprava caro, com moedas de ouro; hoje elas estão se oferecendo num vasto mercado e valem menos do que um político blindado.

Deus, por outro lado, quer o corpo que, conforme diz a nossa esperança, voltará a viver para sempre no dia da ressurreição. Eis uma imagem amada por um menino canhoto. No dia em que os mortos acordarem do seu longo sono haverá a reconciliação de todos os dualismos. A vida vai englobar a morte. Nesse dia glorioso todos vamos nos ver de novo e nos abraçar enternecidos. Seremos então jovens, fortes, bonitos, puros, alegres, e sem conflitos, debaixo daquela luz gloriosa que virá de um céu que não conhecemos. Esse é o dia do encontro com todos os nossos mortos queridos. A experiência do corpo e com o corpo nos leva para essa imagem mágica e redentora de todas as nossas dúvidas e sofrimento. Amém.






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