Artigo

Como ser rico, livre e justo?*

Carlos Alberto Sardenberg
é jornalista, comentarista econômico da TV Globo e âncora da rádio CBN. E-mail: sardenberg@cbn.com.br; carlos.sardenberg@tvglobo.com.br.



* Publicado no jornal O Globo - 26/01/2012

Os Estados  Unidos têm a maior economia do mundo e, em renda per capita, estão entre  os dez mais ricos. Considerando apenas os países grandes, os EUA são os  mais ricos. Além disso, trata-se de uma democracia. Logo, é esse o  modelo a ser copiado, certo?

Mas olhem o momento: uma baita crise  financeira e a evidência de que os mais ricos sempre se saem melhor. Na  prosperidade, ganham mais, na queda, perdem menos. Além disso, empresas e  bancos, na liberdade de mercado, só pensam nos seus lucros, dane-se o  povo. Não, esse sistema não serve mais, nem para os americanos.

Passemos,  então, para a segunda maior economia do mundo, a China. Crescimento  médio anual de 10% ao longo de três décadas! Há empresas privadas,  nacionais e estrangeiras, mas as estatais e o governo controlam  firmemente os negócios, impondo limites à ganância do mercado. Para os  países emergentes, em especial, esse capitalismo de estado seria o  modelo ideal para o crescimento rápido e mais equilibrado, certo?

Mas  é uma ditadura - e provavelmente o modelo só para de pé nesse ambiente  autoritário. O controle do governo gera muitas ineficiências e  corrupção, pois os negócios dependem sempre do "apoio" de um governante  ou de um dirigente do Partido Comunista. Além disso, além de salários  baixos, há muita desigualdade, sim. Em Shangai, o padrão de vida é  europeu. No interior, há regiões mais pobres que a África. Não, esse  tipo de crescimento não justifica uma ditadura.

Passemos, então,  para a Europa, a ocidental, onde se pratica o capitalismo do bem-estar  social ou a economia social de mercado. A Alemanha, terceira maior  economia do mundo, é o exemplo acabado: democracia, empresas privadas  pujantes, mas com forte regulação, e um governo que fornece serviços  universais de qualidade. São ricos, livres e têm a proteção do Estado -  eis o modelo, certo?

Mas custa muito caro. Isso exige uma carga  tributária cada vez mais elevada e, mesmo assim, a dívida dos governos  já chegou a níveis insuportáveis. Esse custo e mais o excesso de  regulação e de governo retiram competitividade das empresas. Resultado:  baixo crescimento, níveis elevados de desemprego, especialmente entre os  jovens. As gerações atuais estão protegidas, mas os mais jovens  percebem que o futuro não garante a boa vida dos pais. Não, o modelo  parece não servir nem para os próprios europeus.

Eis o debate que ocorre mundo afora, inconcluso. Voltaremos ao tema, claro.

Vitória brasileira?

E  por falar em modelo, a inflação aqui fechou o ano passado exatamente no  teto da margem de tolerância, 6,50% - e isso foi considerado uma  vitória do governo.

A meta de inflação no Brasil é de 4,5% - que,  em si, já é elevada para os padrões mundiais. Além disso, admite-se que  ela seja estourada em até dois pontos para cima, em situações  excepcionais e fora do controle do BC.

No caso de 2011, o BC  brasileiro sustentou que a disparada da inflação no fim de 2010 e início  do ano passado decorria fortemente de um "choque de alimentos" - com  seca ou excesso de chuva prejudicando colheitas mundo afora e, assim,  provocando uma inflação global.

Pela regra do regime de metas de  inflação, se os índices estão acima do ponto, o BC usa sua arma  principal, a alta de juros. Isso funciona quando consumo e investimentos  estão muito aquecidos.

Mas por que fazer isso quando a culpa pela inflação não está em um excesso de demanda, e sim em desastres climáticos?

Acrescente-se  ao quadro que a economia mundial está em queda - e a história parece  fechada. O BC não apenas não precisa subir juros, mas pode reduzi-los,  como está fazendo, afirmando que a inflação voltará à meta de 4,5% em  algum ponto deste ano, certo?

Convém reparar: a inflação bateu no  teto com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) quase certamente  abaixo dos 3%. Em 2010, a inflação havia sido menor (5,91%), com PIB  acelerado, a 7,5%. Ou seja, em 2011, tivemos menos crescimento, com mais  inflação - e esta é uma combinação ruim em qualquer perspectiva.

Considerando  o período 2008/11, a economia brasileira cresceu menos de 4% ao ano. Já  a inflação, sempre medida pelo IPCA, registrou média anual de 5,58%,  acima da meta. De novo, crescimento baixo com inflação elevada.

Resumo da ópera: inflação de 6,5% pode ser um alívio, não uma vitória.

Olhando  para a economia real, é claro que não teria feito a menor diferença se o  IPCA tivesse alcançado, digamos, 6,6%. Mas com ou sem variações nas  casas depois da vírgula, o fato é que o Brasil continua com capacidade  de crescimento limitada e com um nível de inflação perigosa e  persistentemente elevado. Ao comemorar os 6,5%, o governo passa uma  imagem equivocada.






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