Artigo

Carnaval 2015

João Baptista Herkenhoff
É magistrado aposentado, palestrante e escritor. Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito do Santo e professor pesquisador da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha. Autor do livro Filosofia do Direito (GZ Editora, Rio, 2010) e Encontro do Direito com a Poesia - crônicas e escritos leves (GEditora, Rio de Janeiro). E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br Homepage: www.jbherkenhoff.com.br



          O primeiro jorro de petróleo no Brasil ocorreu num dia de Carnaval. O pesquisador que comandava o projeto foi ao Rio de Janeiro, então capital da República, para comunicar o fato às autoridades e à opinião pública.

          Alguns dos pretendidos ouvintes dirigiram-lhe impropérios: "você é maluco? vem falar de petróleo em pleno Carnaval?"

          Outros foram mais gentis: "o momento não é próprio para esta comunicação, amigo; hoje só caberia comunicar que está jorrando cachaça em algum ponto do território brasileiro; deixe este assunto de petróleo para uma oportunidade adequada".

          Embora o Carnaval comece oficialmente no sábado, na verdade a folia já teve início. Não quero destoar do clima, como aconteceu com o pesquisador citado, e tratar de outro tema no artigo de hoje.

          O Carnaval não é, de forma algum, um assunto fútil. Muito pelo contrário, é coisa muito séria.

          A busca de identidade é muito forte na alma humana. Alguns afirmam sua identidade praticando crimes. À margem da sociedade, sem qualquer tipo de reconhecimento, só a prática de atos criminosos lhes conferem presença no mundo. No submundo do crime têm nome e são ouvidos. A autoafirmação pela rota do crime é prejudicial à coletividade e frustrante para a pessoa que tenta fugir do anonimato através desta enganosa solução.

          Muito mais sábio é buscar ser pessoa através da participação numa escola de samba ou bloco de Carnaval. Quem pertence a uma escola ou bloco tem endereço, raiz, deixa de ser alguém sem lenço e sem documento. As escolas de samba permitem que os mais pobres, dentre os pobres, pelo menos por um dia sejam aplaudidos nas avenidas e reconhecidos como gente com alma e coração. Na biografia de alguns cidadãos, que prestaram grandes serviços à comunidade, registra-se que passaram por uma escola de samba. Vibro com as escolas sim, mas vibro ainda mais com o rosto feliz dos sambistas.  Esses rostos me emocionam.

          Aquele gari que nunca ouviu um "muito obrigado" pelo seu importante trabalho de limpeza das vias públicas, é aplaudido com entusiasmo quando desfila fantasiado de príncipe, marinheiro ou aviador.

O desfile de uma escola de samba é o teatro do povo, e o teatro, por uma longa tradição, construiu consciências. Não é por acaso que temas de escolas de samba foram vetados nas ditaduras brasileiras. Hoje vivemos um clima democrático. As escolas de samba podem satirizar a presidente da República, governantes em geral, legisladores, magistrados. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo povo, que tesouro sem preço é a Liberdade.

Se houvesse menos preocupação em punir e lotar as prisões e mais preocupação com ações educativas e de valorização humana, a criminalidade teria uma imensa redução.

João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado, professor e escritor. E-mail: jbpherkenhoff@gmail.com

Site: www.palestrantededireito.com.br

 

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