Artigo

Capitalismo solidário*

Thomás Tosta de Sá
presidente do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).



* Publicado no jornal Valor Econômico - 23/01/2012

Em recente artigo, o professor da Universidade de  Harvard, Kenneth Rogoff, um dos economistas mais reverenciados da  atualidade, lançou aos leitores a seguinte pergunta: "o moderno capitalismo é sustentável"? Em busca da resposta, ele faz uma brilhante  análise sobre os diversos momentos do capitalismo a partir da Revolução  Industrial e do desastre do marxismo e do socialismo, surgidos  justamente como alternativa ao capitalismo.

A conclusão resulta em  novo questionamento: "será o capitalismo uma vítima de seu próprio  sucesso ao produzir prosperidade maciça"? Por mais que a hipótese nos  pareça remota e contraditória, é importante levá-la em consideração.  Enquanto a poluição, a instabilidade financeira, as doenças e  desigualdades continuarem a crescer e o sistema político se mantiver  paralisado, o futuro do capitalismo pode não se apresentar tão seguro  daqui a algumas décadas como parece agora.

O lucro gerado pelas  empresas é a medida correta do sucesso do capitalismo. Não é por outra  razão que a palavra lucro foi - e ainda é - odiada por seguidores do  marxismo-socialismo em todo o mundo. Na realidade, o lucro consiste na  demonstração do uso eficaz dos fatores de produção: capital humano,  capital financeiro e recursos naturais. Quanto maior a produtividade  gerada pela associação de tais fatores de produção, maior o lucro e mais  sustentável o modelo capitalista.

As distorções que ocorrem no  sistema capitalista e que resultam nos problemas apontados por Rogoff  são decorrentes da forma de obtenção dos lucros e-ou da maneira como são  distribuídos. Segunda maior economia do mundo, a China caminha para  desbancar os Estados Unidos dentro de alguns anos. Seu modelo de  capitalismo é particular, batizado de socialismo de mercado, utilizando  como base a análise feita por Peter Drucker, em 1975, no livro "A  revolução invisível". A China tem obtido taxas fantásticas de  crescimento com enorme sacrifício de dois fatores de produção: capital humano e recursos naturais.

A oferta quase infinita de capital  humano de suas zonas rurais é movida pela migração de 20 milhões a 30  milhões de pessoas por ano rumo aos centros urbanos. Essa parcela da  população vive em regime de semiescravidão, sujeita a um partido  comunista altamente corrupto. A mão de obra numerosa representa uma  expressiva vantagem competitiva em relação às outras economias do mundo.

Investindo  na educação desse enorme contingente humano e melhorando a sua  remuneração, aumenta-se, consequentemente, a produtividade, o que  proporciona avanço em seu poder de consumo. Mais consumidores fortalecem  o mercado interno, tornando-o altamente competitivo. Gradualmente, surge o maior exportador de produtos industrializados do planeta.

A  China pratica ainda uma das políticas ecológicas mais sujas do mundo. Não investe na proteção de seus recursos naturais nem em  sustentabilidade. Com o achatamento da remuneração do capital humano e a  ausência de gastos na qualidade de seu meio ambiente, as empresas chinesas maximizam seus lucros, permitindo que o país obtenha as taxas mais elevadas de formação bruta de capital, garantindo seu crescimento a  níveis que lhe assegurarão o posto de maior economia mundial.

Será  esse modelo capitalista-socialista de mercado que prevalecerá no  futuro? Será essa a ameaça que as economias capitalistas democráticas  não saberão enfrentar? Será que a sociedade chinesa sobreviverá a um  modelo político autoritário praticando um capitalismo "sujo", de  sacrifício do capital humano e do ambiente? Da mesma forma que as  economias democráticas terão que buscar mudanças em seus modelos para  sobreviver, também a China terá que buscar outros caminhos.

Quando  eu cursava engenharia na PUC, no início da década de 60, o padre Ávila,  professor de religião, falava muito do movimento do Solidarnósc, que  surgia na Polônia em oposição ao comunismo vigente.

Em família, um entre nove filhos, aprendi desde pequeno que a solidariedade era a  melhor forma de convivência. Acredito, também, que o capitalismo solidário será a resposta correta à sustentabilidade do desenvolvimento das nações.

Mas o que significa um capitalismo solidário? É um  capitalismo que se estrutura no aumento da produtividade dos fatores de  produção ao mesmo tempo que garante uma melhor distribuição dos lucros  gerados pelas empresas. O capital humano só aumentará sua produtividade  se garantirmos aos trabalhadores mais investimentos em educação, saúde,  segurança, transporte e habitação.

O capital financeiro só  aumentará sua produtividade se garantirmos eficácia na alocação de  recursos por meio de mercados de capitais desenvolvidos, no lugar de  decisões centralizadas nas mãos do governo e de suas instituições.  Entendemos que o mau uso desses recursos financeiros seja objeto de  penalização de seus gestores, públicos ou privados. Entendemos, também,  que executivos de instituições financeiras não sejam premiados com bônus  milionários, como ocorreu recentemente nos Estados Unidos. Da mesma  forma, os recursos naturais só aumentarão sua produtividade se forem  explorados sem sua destruição e com sua renovação no que couber.

A  maximização do lucro deve manter-se como medida de sucesso dos  investimentos realizados. Porém, precisamos buscar formas mais justas de  sua distribuição. O Brasil poderá ser um exemplo de capitalismo  solidário se sociedade e governo perseguirem juntos esse objetivo.






(c) 2009-2013. Transparência Capixaba - Todos os direitos reservados. Porto - Internet de Resultados.
Porto - Internet de Resultados