Artigo

Brasil embriagado*

Martha E. Ferreira
é economista, consultora de negócios, palestrante e professora de Conjuntura Econômica em cursos de pós-graduação e MBA.



* Publicado no jornal A Gazeta do dia 5 de abril de 2012

Relatório da Organização Mundial da Saúde - OMS estima que o consumo abusivo de álcool mate cerca de 2,5 milhões de pessoas, por ano, no mundo; cerca de 1,2 bilhão de pessoas são alcoólatras; e aproximadamente 4,5% de todas as doenças e lesões são decorrentes do seu uso.  

O alcoolismo é um problema que afeta a vida de todos. Em se tratando de saúde pública, porque está associado a doenças, violência e acidentes graves; e problema social, porque desintegra famílias, dificulta relações interpessoais e dizima empregos.

Ele é precursor de outros 60 tipos de doenças, tais como cirrose hepática, doenças cardiovasculares, câncer, distúrbios neuropsíquicos, síndrome do alcoolismo fetal, pancreatite alcoólica e AIDS.

Uma das principais características da doença é que o alcoólatra nega a sua existência dificultando, sobremaneira, a possibilidade de cura.

Ainda assim, entre 80 países analisados, durante 05 anos, o uso de bebidas alcoólicas, entre menores de 18 anos, cresceu 71%, e na faixa etária entre 18-25 anos, o aumento foi de 80%.

Estudos demonstram que os países gastam, em média, 2,5% do PIB, com o alcoolismo e sua relação com outras doenças e ferimentos graves. Estes investimentos poderiam estar direcionados para outros benefícios à comunidade.

Ainda de acordo com a OMS, a média mundial de consumo de álcool puro é de 6,13 litros, por ano. Os europeus são campeões, com uma média de 12,1 litros, por ano, e os brasileiros, de 9,2 litros, acima da média das Américas, que é de 8,6 litros.

O álcool é a droga preferida de 68,7% dos brasileiros. O país ocupa, sem orgulho algum, o 1º lugar no ranking mundial em consumo de cachaça e o 5º em produção de cerveja.

No Brasil, 25% dos motoristas dirigem bêbados e aproximadamente 50 mil pessoas morrem, por ano, em acidentes de trânsito. Em 61% dos acidentes, o condutor havia ingerido bebida alcoólica e, entre as vítimas fatais, 75% apresentavam alcoolemia positiva.

Na contramão dos seus efeitos danosos, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que somente o bafômetro e exame de sangue podem atestar a embriaguez do motorista, excluindo provas testemunhais ou exame médico. Com isso, a Lei Seca fica esvaziada, uma vez que o motorista não é obrigado a produzir provas contra si e pode recusar os exames.

Então, o Congresso propôs tornar Lei um projeto que considera crime quem dirigir após ingerir qualquer quantidade de álcool. É a tolerância zero que já deveria estar em vigor, há muitos anos, poupando vidas e recursos públicos.

Para fechar ainda mais o cerco contra o alto consumo de álcool, muitos políticos exigem a manutenção do Estatuto do Torcedor, para proibir a comercialização de bebidas alcoólicas dentro de estádios, durante a Copa ou qualquer outro evento esportivo.

Cabe à sociedade brasileira apoiar essas iniciativas, propor outras que evitem a difusão do vício e suas conseqüências, e exigir políticas públicas que reabilitem o alcoólatra.

O eleitor deve riscar da sua lista, políticos que votam contra as boas iniciativas ou aceitam o lobby de fabricantes e patrocinadores, que teimam em veicular propaganda de bebidas alcoólicas, associadas a momentos gloriosos, sexualidade e patriotismo, provando que torcem por um Brasil de embriagados, doentes e mortos.






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