Artigo

Antes do big bang*

Marcelo Gleiser
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: http://goo.gl/93dHI



* Publicado no jornal Folha de S. Paulo - 15/01/2012

Voltando no tempo, as galáxias se apertam, o calor aumenta e a matéria se dissocia em partículas


Como escreveu Milan Kundera, "as únicas perguntas sérias são aquelas que  até uma criança pode fazer". Dentro desse espírito, hoje olharemos para  algumas dessas perguntas sobre o Universo.

O modelo do Big Bang usa observações para concluir que o Universo  originou-se há 13,7 bilhões de anos e que vem se expandindo e esfriando  desde então. Essa afirmação não é uma crença. Ela se baseia em  evidências concretas. O princípio da ciência é "ver para crer" e não  vice-versa.

Sabemos que o Universo está em expansão pois, ao medirmos a luz de  galáxias distantes, vemos que ela é desviada em direção a maiores  comprimentos de onda, como prevê o efeito Doppler. Imaginando a luz como  uma onda (ou o fole de um acordeão), a expansão implica na maior  separação entre os picos, causando mudanças na luz que é medida na  Terra.

Essa expansão é uma dilatação do próprio espaço. Galáxias não são como  os detritos de uma bomba que explodiu. Caso fossem, o Universo teria um  centro onde tudo começou. Pelo contrário, todos os pontos no Cosmo são  importantes, como na superfície de uma bola.

Imaginando as galáxias como moedas coladas à bola, quando ela infla, um  observador em uma galáxia verá todas as outras afastando-se dele. Mas  outros observadores em outras galáxias verão a mesma coisa: nenhum é  mais central que os outros. Nosso Universo é assim, mas em três  dimensões (a superfície da bola tem duas dimensões).

Mas se o Universo está se expandindo, o que há do lado de fora?

A confusão vem de vermos a expansão cósmica como uma bola imersa no  espaço à sua volta. Vendo a superfície da bola como um Universo em duas  dimensões, tudo o que existe é a superfície e nada mais: a bola infla e  crescem as distâncias entre as moedas (as galáxias). Nada existe, ou  precisa existir, do "lado de fora". O espaço nasce e cresce com a  expansão.

A coisa é mais sutil pois, devido à velocidade da luz, só podemos ver  até uma certa distância. Nosso "horizonte" chega a uns 42 bilhões de  anos-luz, distância percorrida pela luz em 13,7 bilhões de anos. (Seriam  13,7 bilhões de anos-luz se o Universo não estivesse em expansão, mas a  luz pega carona com a dilatação do espaço e viaja três vezes mais  longe.) Portanto, pode haver bastante espaço "lá fora", além do  horizonte, também em expansão.

Porém, ao voltarmos no tempo, a "bola" fica menor e as galáxias se  apertam. O calor aumenta e a matéria se dissocia em seus constituintes  básicos: de moléculas a átomos e, depois, outras partículas.  Rapidamente, chegamos a uma época em que as energias estão além do que  podemos testar em laboratório.

O que ocorreu no começo? Há duas escolas: uma afirma que o Universo,  como uma bolha em uma sopa fervendo, surgiu de uma flutuação  submicroscópica, e que só então, quando a energia dessa bolha espacial  transformou-se em matéria, o tempo começou. Não existia um "antes" pois  não existia mudança alguma para ser quantificada.

Outra diz que o Universo é parte de um multiverso eterno, entidade em  que todos os universos possíveis coexistem. O fascinante é que essa  hipótese pode até ser verdadeira. Mas não sabemos como testá-la.






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