Artigo

Ano do cooperativismo*

Roberto Rodrigues
coordenador do Centro de Agronegócio da FGV e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). rr.ceres@uol.com.br



* Publicado no jornal Folha de S. Paulo - 14/01/2012

A cooperativa oferece ao seu cooperado serviços que lhe permitam evoluir economicamente

O cooperativismo brasileiro vem crescendo bastante, impulsionado pelo  firme timão da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), órgão de  cúpula do movimento.

Muita gente acha que esse poderoso instrumento de organização econômica  da sociedade seja exclusivamente agrícola, o que é um engano. Os números  são notáveis e mostram como o movimento se expandiu na área urbana.

Há dez anos, o Brasil tinha 5.903 cooperativas, das quais 1.411 eram  rurais, com 831.654 associados. Cerca de 2.067 eram urbanas, com  2.493.197 associados. No último levantamento da OCB, de dezembro de  2010, as cooperativas urbanas já eram 2.953, com 3.816.026 associados, e  as agrícolas eram 1.548, com 943.054 associados.

As cooperativas urbanas atuam nas áreas de consumo, educação, habitação,  infraestrutura, produção, saúde, transporte, turismo e especial (para  pessoas com deficiência).

E, além das rurais e urbanas, existem as cooperativas de crédito, em  número de 1.064, com mais de 4 milhões de associados, a grande maioria  urbanos, embora a área rural ainda tenha maior poder econômico. Também  as cooperativas de trabalho, 1.024 no total, são majoritariamente  urbanas, com seus 217 mil associados, mas algumas funcionam no campo  também.

O número das que são apenas agropecuárias cresceu 35% nestes dez anos, e  as exclusivamente urbanas, 42%. Mas o número de associados destas  aumentou 53%, enquanto o das agropecuárias, só 13%.

É claro que a urbanização crescente do Brasil tem muito a ver com isso, mas não é o único fator responsável.

Uma cooperativa precisa de três condições básicas para se desenvolver de  maneira positiva: em primeiro lugar, precisa ser necessária.

Não adianta querer criar uma cooperativa de qualquer tipo se ela não for  sentida, pelos futuros cooperados, como uma necessidade, capaz de  responder às pressões econômicas a que estão submetidos.

Cooperativismo é um movimento de base, tem que crescer de baixo para cima, não pode ser imposto.

Em segundo lugar, precisa ser viável economicamente: cooperativa é uma  empresa, com a diferença de que o lucro não é o fim em si; ela é o  instrumento da doutrina cooperativista que objetiva "corrigir o social  através do econômico".

Portanto, a cooperativa oferece ao seu cooperado -de qualquer ramo-  serviços que lhe permitam evoluir economicamente e, por conseguinte,  acessar novos níveis sociais.

Mas, mesmo assim, é uma empresa -com seu viés social, é claro-, tem que ser eficiente e lucrativa.

Por isso tudo, criar uma cooperativa sem nenhum capital é vê-la nascer morta.

E, por fim, é preciso que haja espírito associativo, com liderança capaz de conduzir o processo.

Ora, a rápida urbanização do país trouxe para as cidades demandas  estruturais, tendo em vista melhorar a renda dos cidadãos. Estes se  organizaram então em cooperativas de trabalho, de consumo, de saúde, de  educação, de habitação, de crédito etc., e o movimento ganhou uma  dimensão tão espetacular quanto a que aconteceu em outros países do  mundo pelas mesmas razões.

Tudo isso foi potencializado pelo vigoroso processo de globalização da  economia que produziu exclusão social e concentração da riqueza, dois  inimigos mortais da democracia e da paz.

Os excluídos se agruparam em cooperativas e com isso também mitigaram a  concentração, transformando-se em bastiões aliados dos governos  democráticos pela sustentação da paz.

Aqui e no mundo todo.

É bom lembrar que existem cooperativas em todos os países, e o número  total de seus associados é próximo a 1 bilhão de pessoas. Se cada qual  tiver três agregados, são 4 bilhões de terráqueos ligados direta ou  indiretamente ao cooperativismo, constituindo o mais gigantesco  contingente humano em defesa da democracia e da paz universal.

Não é por outra razão que a ONU declarou 2012 como o Ano Internacional  do Cooperativismo. E pela mesma razão esse extraordinário movimento bem  que merece o Prêmio Nobel da Paz.






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