Artigo

Ainda sobre a ocupação da ZEE8*

Álvaro Abreu
é engenheiro mecânico, mestre em produção, professor universitário e diretor da TECMARAN.



* Publicado na página 2 do Caderno 2 do jornal A Gazeta de 27 de novembro de 2012

Estive na audiência pública convocada pela Prefeitura de Vitória para conhecer uma proposta de ocupação e uso da ZEE-8, região onde está localizado o Shopping Vitória. Era uma das etapas obrigatórias do processo de avaliação das intenções, explícitas e implícitas, dos proponentes. A lei obriga que sejam ouvidos outros interessados no que possa vir a acontecer naquela região da cidade. É democrática nas intenções, embora nada garanta que as opiniões sejam levadas em consideração nas decisões. É justamente aí que mora o perigo, já que havia até cronograma prevendo que tudo fosse aprovado até o fim deste ano, sem muito alvoroço. Trata-se de uma proposta de dimensões muito significativas, conhecida de perto por pouquíssimas pessoas.

O assunto havia fervido e pipocado nas redes sociais. O cinema estava lotado de gente nova e de gente madura nas cadeiras, no chão e na entrada. Todos atentos, incluindo os que ali estavam por determinação superior, para fazer número e bater palmas. Ainda que com o sorriso tão amarelo quanto o da vendedora bonitinha que estava ao meu lado.

Pelas conversas no saguão do cinema e pelas intervenções dos participantes em plenário, ficou patente que existe muita gente que não concorda com a iniciativa de implantar, em um dos últimos espaços livres existentes na cidade, um enorme paquiderme de vidro e concreto armado à beira mar. Visto de cima, um imenso telhado cinza, complementado por umas poucas manchas verdes. Isso mesmo, o projeto prevê algumas áreas verdes colocadas a mais de trinta metros do nível do mar, visíveis apenas da ponte ou da janela dos aviões de carreira e dos helicópteros petrolíferos.

Os impactos do empreendimento no trânsito na região do aterro foram mais uma vez minimizados e os investimentos em eventuais soluções atribuídos aos cofres públicos. A impressão que ficou é a de que se está pretendendo adotar, mais uma vez, a velha prática de privatizar os lucros e distribuir as perdas e os custos entre os cidadãos desavisados. As ponderações, feitas sob encomenda, por autoridade estadual especializada em assuntos de mobilidade, irritaram bastante os presentes e a proposta de construir um mergulhão provocou uma sonora gargalhada coletiva. Sensato e estratégico, um participante propôs que a apreciação do projeto fosse feita somente após finalizada a adequação da infraestrutura viária da região.

Ouviu-se, de viva voz, o argumento central dos empreendedores: expandir para garantir a competitividade do negócio; como se já não bastasse o Shopping estar situado no lugar mais visível e acessível da cidade, o que lhe garante um incomparável e permanente "diferencial" competitivo. Na contramão de tais expectativas, houve quem sugerisse, com seriedade e convicção, que a área livre fosse doada à cidade, para transformá-la em um belo parque, com uma grande área de lazer integrada ao restante da orla, dotado de estacionamento no subsolo e tudo o mais, como bem imaginou uma arquiteta risonha. A proposta tirou o sorriso de membros da mesa e mereceu salva de palmas ensurdecedora de quem estava na plateia.

O que me deixa animado é saber que pelo menos oito entidades e associações de moradores protocolaram na Prefeitura de Vitória pedidos bem fundamentados de anulação formal da audiência pública, para interromper preventivamente o processo de apreciação em andamento e, sobretudo, garantir a realização de estudos que informem os reais impactos da proposta completa de empreendimento apresentada na audiência. Que se instale e prevaleça o bom senso.






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