Artigo

Agenda previdenciária*

Fabio Giambiagi
Integra o Departamento Econômico do BNDES desde 1996. É Mestre em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da UFRJ e graduado pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FEA/UFRJ).



* Publicado no jornal O Globo - 10/01/2012

O tema previdenciário foi, ao longo dos últimos  20 anos da minha carreira, uma companhia constante. Tratei dele em três  livros específicos - dois deles na companhia de Paulo Tafner - além de  muitos textos acadêmicos e um grande número de artigos jornalísticos. O  assunto é politicamente complexo em qualquer lugar do mundo, por uma  razão: enquanto que a grande maioria das questões de finanças públicas  afetam setores específicos da sociedade, a Previdência Social diz  respeito a todos, pois todos ou somos aposentados ou aspiramos a sê-lo  um dia, além de termos algum parente nessa condição. Nestes 20 anos,  além de ter envelhecido - o que muda a perspectiva de muitas coisas - e  de ter sido pai - o que alimenta a percepção de que estamos de passagem e  temos um compromisso com as gerações futuras -, tive oportunidade de  pensar muito acerca da forma em que o cidadão comum se relaciona com a  temática. Passei por todo tipo de situações, desde debates com plateias  hostis e gente avançando para mim de dedo em riste, até apresentações no  Congresso Nacional, passando pela conversa com os leitores no complexo  mundo da web, que gerou desde casos como o de uma leitora que, indignada  com minhas posições, sugeriu que eu me suicidasse, até diálogos  enriquecedores que deram início a boas amizades.

Dessa  experiência, extraí cinco conclusões importantes: a) não devemos  subestimar o poder da razão. Embora seja um assunto que é quase sempre  tratado com um forte conteúdo de emoção, argumentos bem fundamentados  expostos de forma educada fazem as pessoas pensarem; b) a maioria das  pessoas tem a percepção, ainda que difusa, de que algo precisa ser  feito, porque sabe que o envelhecimento progressivo das sociedades é  inexorável; c) apesar disso, essa mesma maioria desconhece as principais  questões que afetam a Previdência; d) há uma enorme - e compreensível -  revolta de uma fração significativa da sociedade com a corrupção e a  sucessão de escândalos que se sucedem impunemente no Brasil, o que acaba  afetando negativamente a disposição dos indivíduos a aceitarem ideias  que em outros países têm maior passagem. É como se o cidadão  raciocinasse do seguinte modo: logo em um país onde se rouba  descaradamente e ninguém vai preso, vão querer me convencer de que o  problema é minha aposentadoria; e, por fim, e) apesar da percepção  citada em b), há uma postura diferente das pessoas acerca das questões  previdenciárias comparativamente à que existe em outros países. O  brasileiro médio tem dificuldade de aceitar propostas sobre a matéria  que, nas demais nações, são aceitas de forma quase unânime. No Brasil,  muitas pessoas se aposentam com 50 anos como se fosse inteiramente  natural, algo que na imensa maioria das economias é simplesmente  inimaginável. Adotar regras de aposentadoria comuns a outros países soa  tão ofensivo a muitas pessoas aqui como soa ao venezuelano comum,  acostumado a depender dos recursos da estatal de petróleo PDVSA para  tudo, a ideia de ser taxado, um fato da vida já incorporado aos usos e  costumes da democracia.

Celso Furtado - insuspeito de ter  simpatias pela ortodoxia - dizia que "planejar é preparar o futuro".  Estou convencido de que o Brasil não se está preparando bem para o  futuro e de que está deixando passar uma combinação zodiacal única,  deixando de fazer as reformas que pavimentariam melhor o caminho para  uma prosperidade duradoura. Quando O GLOBO me convidou para ter um  convívio mensal com os leitores, entendo que o que buscava era a  possibilidade de que eu compartilhasse com eles minhas reflexões sobre  os temas aos quais tenho me dedicado ao longo do tempo. É isso o que  farei ao longo do ano que estamos iniciando: tratar, em cada mês, de um  tema diferente ligado à questão previdenciária. Em cada um desses  encontros, irei expor a situação, minhas propostas para lidar com o tema  e as razões que me movem a defender tais propostas.

O roteiro de  temas a tratar inclui a política do salário mínimo, a adoção de regras  rígidas de aposentadoria para aqueles que vierem a ingressar no mercado  de trabalho, a necessidade de uma regra de transição para quem já está  na ativa, etc. O intuito é compartilhar minhas preocupações com o  leitor. Espero, no fim do ano, ter sido bem-sucedido.






(c) 2009-2013. Transparência Capixaba - Todos os direitos reservados. Porto - Internet de Resultados.
Porto - Internet de Resultados