Artigo

A prudência de Dilma*

Eugênio Bucci
Jornalista, é professor da ECA-USP e da ESPM.



* Publicado na REVISTA ÉPOCA - 25/11/2012

O diário espanhol El País chamou a presidente brasileira de "a forte". Em tom de aplauso. O novo apelido apareceu com destaque na edição de domingo passado, na chamada para uma longa entrevista. Dilma não deixa por menos. Logo de cara, condena o receituário de aperto com que o FMI castiga a Europa. O resultado será uma "recessão brutal". E prossegue: "Nós já vivemos isso (no Brasil). O FMI nos impôs um processo que chamaram de ajuste, e que agora chamam de austeridade. Tínhamos de cortar todos os gastos e investimentos. (...) Esse modelo levou à quebra de quase toda a América Latina nos anos 1980. As políticas de ajustes, por si mesmas, não resolvem nada".

O entrevistador se encanta: "Ela fala com convicção, fazendo gestos expressivos, indicando o caminho a seguir. É todo o seu corpo que protesta contra o que está passando do outro lado do Atlântico. Penso que, se já não houvesse na história uma Dama de Ferro (foi com esse título que a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher ganhou celebridade), talvez alguém quisesse conferir esse título a Dilma". A partir daí, lembrando que a imprensa internacional considera a presidente brasileira uma das três mulheres mais poderosas do mundo - superada apenas por Angela Merkel, da Alemanha, e por Hillary Clinton, a secretária de Estado americana -, o jornalista a batiza: La fuerte.

O apelido vai pegar. O El País não é um jornal menor: trata-se do mais influente diário espanhol, com imensa repercussão internacional. O entrevistador, que se sente à vontade para escrever na primeira pessoa enquanto entrevista uma chefe de Estado, também não é qualquer um. Juan Luis Cebrián ocupa o posto de presidente executivo do Grupo Prisa, que publica o El País. Tem autoridade para prever que Dilma travará com Angela Merkel um "duelo de titãs" pelo posto de mulher mais poderosa do planeta, já que se aproxima a data em que Hillary Clinton deixará seu cargo no governo de Obama.

Exageros à parte, o epíteto procede. A política não é bem uma "guerra nas estrelas", mas Dilma Rousseff tem a força. É bem verdade que o Brasil já teve mais de um presidente que falava grosso na Assembleia-Geral da ONU, para impressionar observadores estrangeiros, e piava fino internamente, em frêmitos de pusilanimidade obsequiosa. A atual presidente não vai por aí. Externamente, emite um julgamento duro contra o FMI e, aqui dentro, dá sinais de que não tem parte com a tibieza. Em seu primeiro ano de gestão, demitiu os ministros enlameados por suspeitas mal explicadas, um a um. Depois, obrigou os bancos a baixar os juros, numa proeza que nenhum de seus antecessores teve a coragem de sequer cogitar. Além do capital financeiro, dobrou a resistência dos quartéis e instituiu aComissão da Verdade. Agora, toma providências para cortar o preço da energia elétrica. Contrariando as previsões de que faria apenas um mandato-tampão enquanto Lula saía de férias, mostrou que não tem aptidão para ser refém do PT ou do PMDB - muito menos do próprio Lula. Tornou-se dona de seu governo e de seu destino, candidatíssima à reeleição. La fuerte, por supuesto.

O jornal espanhol não diz, no entanto, que, em Dilma, a força não vem do estilo autoritário, mas da prudência par- cimoniosa. Ela aprendeu a medir gestos e palavras, com pausas e silêncios. Foi assim que cresceu no cargo. Não embarca nas polarizações. Na mesma entrevista em que bate no FMI, reconhece os enganos trágicos de sua geração de militantes armados: "Uma parte da juventude teve o gesto generoso de pensar que era sua obrigação lutar pelo país, inclusive recorrendo a alguns erros". Noutra passagem, desconstrói o mito de que a imprensa livre - que ela defende uma vez mais - teria a intenção (ou o poder) de manipular as autoridades ou a opinião pública: "O povo não se deixa manipular".

Sobre o mensalão, não poderia ter sido mais precisa: "Como presidente da República, não posso me manifestar publicamente sobre as decisões do Supremo Tribunal Federal. Acato suas decisões, não as discuto. O que não significa que alguém neste mundo de Deus esteja acima dos erros e das paixões humanas". Dilma sabe que os ministros do Supremo, como ela própria, podem errar. Sabe que as correções de rumo, se necessárias, poderão ser feitas nas instâncias devidas. Acima disso, sabe que cabe a ela resguardar a normalidade institucional, sem encorajar discursos golpistas. Dilma ensina a quem tiver sabedoria para aprender.

É com determinação, juízo e temperança que a presidente se fortalece.






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