Artigo

A cidade e o legado*

Maria Silvia Bastos Marques e Augusto Ivan Pinheiro
Maria Silvia Bastos Marques é presidente da Empresa Olímpica Municipal do RJ. Foi diretora do BNDES, secretária de Fazenda da cidade do RJ, presidente da CSN e do Grupo Icatu Seguros. Augusto Ivan Pinheiro é assessor da presidência da Empresa Olímpica Municipal do RJ. Foi subprefeito do Centro, diretor de Urbanismo do Instituto Pereira Passos e secretário municipal de Urbanismo.



* Publicado no jornal O Globo - 21/01/2012

Os grandes eventos esportivos mundiais vêm, nos  últimos tempos, desenvolvendo estratégias de sustentabilidade que  busquem maximizar seu impacto positivo e duradouro na vida e na economia  das cidades. Esta preocupação já era notada na década de 60 (Jogos  Olímpicos de Roma), mas se intensificou recentemente, podendo ser  destacados casos como os de Seul (1988), Barcelona (1992), Austrália  (2000), Pequim (2008) e Londres (2012). Do aproveitamento das vilas de  atletas para futuras moradias (Roma) a um plano complexo de regeneração  urbana de uma área degradada e obsoleta (Londres), os exemplos são ricos  em demonstrar que há muito mais coisas entre cidades e eventos  olímpicos do que única e exclusivamente a realização de competições  esportivas.

Atualmente, o conceito que une jogos e política urbana  se encontra tão absorvido que o Comitê Olímpico Internacional, no  capítulo 1 da Carta Olímpica, recomenda a adoção de medidas que promovam  "um legado olímpico positivo" na cidade-sede. Neste enfoque, os Jogos  são vistos como uma possibilidade ímpar para discutir e alavancar o  desenvolvimento das cidades onde ocorrem, além da dimensão esportiva e  de congraçamento entre diversos povos e culturas e da oportunidade para  demonstrar a capacidade de organização de seus promotores.

Das  pioneiras feiras internacionais do fim do século XIX e início do XX,  onde as nações exibiam sua pujança econômica e tecnológica como  atrativos para novos investimentos, aos megaeventos esportivos do século  XX, em que as cidades globais passaram a desempenhar este papel, as  grandes competições ganharam destaque como promotoras de imagem. Foi  assim que as metrópoles incorporaram o termo legado como um elemento  novo na disputa para sediar as grandes competições.

Neste  contexto, os chamados megaeventos tornaram-se indutores de políticas  urbanas e de parcerias público-privadas, aceleradores da economia,  impulsionadores de práticas de sustentabilidade, melhorias ambientais e  de infraestrutura, de integração social, regeneração urbana,  acessibilidade, mobilidade, conectividade e outras dimensões deste  universo cada vez mais complexo das metrópoles contemporâneas.

O  legado urbano dos megaeventos pode ser entendido a partir de dois  conceitos: o primeiro é o que resulta num conjunto de bens materiais, e o  segundo o que possibilita a apropriação ou a construção de bens de  natureza imaterial. Bens materiais são as instalações esportivas, as  redes de transporte, as vilas de moradia dos atletas e todos os demais  aparatos de lazer, turismo, comunicação e segurança incorporados à  paisagem da cidade-sede em função dos eventos. Como bens imateriais  destacam-se a capacitação dos envolvidos na organização, o estímulo à  prática esportiva, a produção de conhecimento, as alterações na  percepção e no comportamento dos cidadãos em relação ao espaço urbano e,  em última análise, sua identificação com a própria cidade.

A  preocupação com o pós-Jogos foi um ponto central na candidatura do Rio  como sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. Pensou-se nos  Jogos e em sua complexa organização, mas também na oportunidade e  urgência de alavancar os projetos necessários para a cidade, garantindo a  permanência dos benefícios alcançados. A meta buscada pela Prefeitura é  a de construir um legado urbano permanente, cujo valor material se  aproxime do valor do investimento realizado, contribuindo para que o Rio  seja reconhecido, na próxima década, como a melhor cidade do hemisfério  sul para viver, trabalhar e visitar.

A vinculação dos  compromissos olímpicos ao Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável  da Cidade, aprovado pelo prefeito e pelos vereadores em 2009, ao Plano  Estratégico do Rio, e o alinhamento com outros níveis de governo, foram  elementos fundamentais deste processo, pois garantem a esses  compromissos o lastro político-institucional para sua execução.

A  vitória em 2009 da candidatura carioca para sediar os Jogos deve-se  assim, em grande medida, ao compromisso da Prefeitura de realizar  projetos estratégicos para o desenvolvimento da metrópole, sejam eles  materiais ou imateriais. Alguns dos muitos exemplos de legado  diretamente relacionados aos Jogos serão o grande aumento na oferta de  transporte de alta capacidade, os BRTs, a regeneração do Centro do Rio  através do projeto Porto Maravilha, a ampliação do Sambódromo, o Parque  Olímpico - que será um novo bairro pós-Jogos, referência em  sustentabilidade e acessibilidade - e onde ficará também o Centro  Olímpico de Treinamento para atletas de alto rendimento, a  universalização do ensino de inglês nas escolas públicas municipais, a  participação da população na conservação da cidade, a profissionalização  dos serviços, o aumento no turismo etc. Tudo isto juntamente com o  orgulho de termos sido capazes de realizar com alegria e sucesso, no  tempo exigido e com transparência, aquele que é o maior evento  esportivo, social e cultural concebido pela humanidade.






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